Muito além da catequese, as reduções jesuítico-guaranis no Rio Grande do Sul formaram um complexo sistema social e econômico. No quinto episódio da temporada do programa Aconteceu no RS, dedicada aos 400 anos das Missões, o professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), historiador e jornalista Tau Golin fala sobre mitos e verdades da vida nos Sete Povos das Missões.
Os caciques exerciam papel de gestores. Durante o período de esplendor, as cidades missioneiras chegaram a abrigar mais de 7 mil moradores, superando em população centros como Buenos Aires e Assunção.
O modelo das reduções resultou de uma negociação direta entre jesuítas e caciques guaranis. O professor explica que os líderes indígenas buscavam proteger seu povo de duas grandes ameaças: os encomendeiros, que impunham trabalho servil sob concessão da coroa espanhola, e os bandeirantes paulistas, responsáveis pela escravização de milhares de indígenas no século 17. Diferentemente das aldeias tradicionais, as reduções reuniam diversos cacicados em uma única unidade territorial, mas mantinham a autoridade das lideranças originais.
No cotidiano das missões, o poder era exercido pelo Cabildo, uma espécie de conselho administrativo formado por indígenas. Enquanto os jesuítas — geralmente apenas dois por povoado — atuavam como orientadores espirituais e cuidadores do bem comum, os caciques e indígenas que se destacavam nos estudos e na carreira militar ocupavam os cargos de decisão. A economia era dividida entre o Tupambaé (propriedade de Deus ou do coletivo) e o Amambaé (propriedade dos cacicados e das famílias extensas).
— Essa questão de serem escravos dos jesuítas é uma bobagem. É uma visão completamente equivocada, que tira todo o protagonismo dos caciques e dos índios. Muitos pajés também — defende Golin.
As praças centrais eram o coração das reduções, cercadas por casas coletivas de arquitetura moderna e oficinas onde ferreiros, escultores e tecelões trabalhavam diariamente. O mundo rural também era complexo, com vastas estâncias dedicadas à criação de gado, que abasteciam o consumo interno e financiavam a comunidade.
A diversão e a espiritualidade caminhavam juntas. As missões possuíam orquestras completas e escolas de música.
400 anos das Missões
Em 3 de maio de 1626, o padre jesuíta Roque Gonzales fundou a redução de São Nicolau, a primeira das 18 formadas na primeira fase das Missões no atual território gaúcho. O objetivo era reunir os povos nativos, que viviam dispersos, em centros urbanos organizados para o ensino de letras, números, ofícios e da doutrina cristã.
O contato inicial entre europeus e indígenas foi marcado por profundos desafios culturais. Gerou conflitos, já que nem todos os indígenas aceitaram o processo.
A primeira fase durou até 1639, quando padres e indígenas migraram para o lado direito do Rio Uruguai, atual território argentino, devido aos violentos ataques dos bandeirantes paulistas.
O retorno só ocorreu em 1682, dando início ao período dos Sete Povos das Missões, com a fundação de São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio.
Os jesuítas foram expulsos em 1768, mas permaneceram os guaranis já cristianizados, base importante na formação do povo gaúcho no Rio Grande do Sul.
Aconteceu no RS
Você pode ouvir o Aconteceu no RS na Rádio Gaúcha nas noites de sábado. O horário depende das jornadas esportivas. Novos episódios ficam disponíveis às segundas-feiras, ao meio-dia, no YouTube de GZH.

