O passado da política brasileira está recheado de episódios iguais ou piores do que as crises do século 21. Em 1897, nos primeiros anos da República, o presidente Prudente de Morais viveu dias marcados por conspirações, perseguições e um atentado. O político paulista escapou ileso de uma tentativa de assassinato. Temendo ser derrubado do poder, pouco tempo depois, ordenou a prisão de um senador gaúcho em meio a uma série de trapalhadas da polícia.
O caso envolvendo o senador José Gomes Pinheiro Machado é contado no livro 1897 - A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, resultado de 10 anos de pesquisa de Ely Carneiro de Paiva, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A obra mostra como polarização política, fake news e discursos de ódio já estavam presentes no início da República.
Mergulhado em um ambiente de paranoia, Prudente de Morais via inimigos por toda parte. Chegou a colocar um espião na casa do vice-presidente Manuel Vitorino, que articulava a sua derrubada.
O chefe de polícia do Rio de Janeiro, Manoel Edwiges de Queiroz, acumulou uma série de trapalhadas. Encarregado de vigiar opositores e conspiradores, fracassou ao não impedir o atentado contra o presidente em 5 de novembro de 1897.
O maior erro ocorreu cerca de um mês depois da tentativa de assassinato, quando mandou prender Pinheiro Machado por suspeita de participação em uma trama golpista. Em 8 de dezembro, chegou à central dos Correios um telegrama destinado ao senador gaúcho com a mensagem: “segue tropa 1500”. O telegrafista desconfiou do conteúdo e entregou o documento ao chefe de polícia.
Edwiges de Queiroz acreditou que a mensagem fazia referência a uma revolta armada. Naquela noite, comunicou o caso a Prudente de Morais, no Palácio do Catete. Mesmo diante da sugestão de prisão imediata do opositor, o presidente preferiu aguardar. Ordenou apenas a entrega do telegrama e vigilância sobre a residência do senador.
No dia seguinte, Pinheiro Machado respondeu com outro telegrama, enviado para Guarapuava, no Paraná: “pouco veja arranja 2000”. O chefe de polícia voltou ao presidente afirmando que o número de homens envolvidos na suposta conspiração havia aumentado para 2 mil. A prisão foi autorizada.
Na noite de 10 de dezembro, o senador foi preso em seu palacete no Morro da Graça, no bairro Laranjeiras, enquanto se preparava para jogar pôquer com outros senadores. Ele foi levado ao encouraçado Riachuelo, onde permaneceu preso por mais de 30 dias.
A inocência de Pinheiro Machado só foi comprovada quando apresentou documentos mostrando que os telegramas não tratavam de tropas militares, mas de animais. O senador negociava mulas destinadas ao comércio em Sorocaba, no interior paulista.
Pinheiro Machado morreu em 1915, assassinado com uma punhalada pelas costas no Rio de Janeiro.



