A história do Rio Grande do Sul está profundamente ligada à presença dos jesuítas, que fundaram a primeira redução no lado esquerdo do Rio Uruguai em 1626. No terceiro episódio da temporada do programa Aconteceu no RS, dedicada aos 400 anos das Missões, o padre Anderson Rabêlo, reitor do Santuário do Caaró e pároco da Paróquia Todos os Santos, detalha a trajetória da Companhia de Jesus e o impacto do martírio dos primeiros missionários.
O santuário, no município de Caibaté, foi construído onde ficava a redução do Caaró, no primeiro ciclo das reduções jesuítico-guaranis. É dedicado aos santos mártires, os padres Roque Gonzales de Santa Cruz, Afonso Rodrigues e João de Castilho. Além da relevância histórica e religiosa, oferece outro grande atrativo para os fiéis: a fonte d’água, que teria sido abençoada por Roque Gonzales antes de seu martírio.

Em 1º de novembro de 1628, foi fundada a redução do Caaró, mas nem todos os indígenas aceitaram a presença dos missionários. O cacique Nheçu mobilizou a resistência, pois via na catequização uma ameaça ao modo de vida e às tradições dos guaranis. Ele organizou o ataque que resultou na morte de Roque e Afonso no dia 15 de novembro de 1628. Dois dias depois, João de Castilho foi martirizado na redução de Assunção do Ijuí, hoje município de Roque Gonzales.
Em 1928, por ocasião da celebração do tricentenário do martírio dos três padres, teve início um movimento de busca pela antiga redução do Caaró. Uma cruz assinalou o local cinco anos depois.
Os três jesuítas foram canonizados pelo Papa João Paulo II em 1988, após a comprovação de um milagre ocorrido no Noroeste do Estado. Para o padre Anderson Rabêlo, o sacrifício desses homens serviu como uma "contrapropaganda" que atraiu mais jesuítas, consolidando o projeto missioneiro. Sobre os objetivos das reduções, ele destaca dois:
— O primeiro foi a evangelização e o segundo, a proteção contra a escravidão. As reduções funcionavam como uma espécie de alternativa ao sistema econômico das "encomiendas", predominante na Coroa espanhola, e à escravização, comum entre os bandeirantes paulistas — resume Rabêlo.
400 anos das Missões
Em 3 de maio de 1626, o padre jesuíta Roque Gonzales fundou a redução de São Nicolau, a primeira das 18 formadas na primeira fase das Missões no atual território gaúcho. O objetivo era reunir os povos nativos, que viviam dispersos, em centros urbanos organizados para o ensino de letras, números, ofícios e da doutrina cristã.
O contato inicial entre europeus e indígenas foi marcado por profundos desafios culturais. Gerou conflitos, já que nem todos os indígenas aceitaram o processo.
A primeira fase durou até 1639, quando padres e indígenas migraram para o lado direito do Rio Uruguai, atual território argentino, devido aos violentos ataques dos bandeirantes paulistas.
O retorno só ocorreu em 1682, dando início ao período dos Sete Povos das Missões, com a fundação de São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio.
Os jesuítas foram expulsos em 1768, mas permaneceram os guaranis já cristianizados, base importante na formação do povo gaúcho no Rio Grande do Sul.
Aconteceu no RS
Você pode ouvir o Aconteceu no RS na Rádio Gaúcha nas noites de sábado. O horário depende das jornadas esportivas. Novos episódios ficam disponíveis às segundas-feiras, ao meio-dia, no YouTube de GZH.





