Uma máquina de quatro rodas despertou a curiosidade dos moradores nas ruas de Porto Alegre em 1906. Um automóvel De Dion Bouton foi importado pela família Greco, italianos que prosperavam nos negócios no Rio Grande do Sul. Por mais de um século, o carro de fabricação francesa é apontado em livros e na imprensa como o primeiro a circular na capital gaúcha.
Como em outros episódios, ao longo do tempo, a história da chegada do automóvel ganhou diferentes versões. O Almanaque Gaúcho resgata esse momento com base em jornais e nos relatos do empresário Januário Greco, que orgulhosamente apresentava um documento emitido pela Inspetoria de Veículos, em 1922, que atestava o pioneirismo.
Chegada do carro
O jornal A Federação noticiou, em 18 de abril de 1906, que estava guardado no armazém três da Alfândega um automóvel de Nicola Greco, pai de Januário. Ele era o proprietário da firma Nicola Greco & C., com uma fábrica de banha na Rua Sete de Setembro.
O Correio do Povo publicou, em 19 de abril, que naquele dia deveria deixar a Alfândega o automóvel importado. O italiano Nicola, citado como Nicolau, também foi creditado como proprietário do "elegante" veículo, que "constituirá novidade para esta Capital, que não possui ainda nenhum outro". O jornal destacou que não existia outro automóvel naquele momento na cidade.
Em 1956, quando a vinda do primeiro carro completou 50 anos, Diário de Notícias e Correio do Povo publicaram reportagens baseadas em entrevistas com Januário Greco. Ele contou que acertou o negócio durante uma viagem a São Paulo, em setembro de 1905, quando conheceu um representante da firma francesa J. Dreyfus e Flacheld. O empresário comprou um carro De Dion Bouton, na cor grená, fabricado na França.
Quando chegou a Porto Alegre, após o desembaraço alfandegário, o veículo foi levado para o armazém da família Greco. Nas entrevistas, Januário lembrou que estava com um problema, pois não sabia dirigir. Sem encontrar outro motorista na cidade, descobriu que a solução estava na Casa de Correção. Por falta de opções, um italiano preso foi o "chauffeur". O chefe de polícia permitiu que o detento ajudasse o empresário, inclusive saindo temporariamente da cadeia.
O passeio
O carro foi empurrado até a Casa de Correção, que ficava ao lado do terreno onde mais tarde foi construída a Usina do Gasômetro. Januário disse que levou junto cinco litros de gasolina.
— O preso, ao receber-nos, ficou admirado e surpreso ao saber que, em Porto Alegre, ninguém conseguira movimentar o automóvel. Feito o abastecimento e, após uma revisão, abriu o contato da bateria e o veículo passou a rodar no pátio da Casa de Correção. Todos ficaram maravilhados — contou Januário ao Correio do Povo em 1956.
Januário dizia que o primeiro passeio foi em 25 de abril, até o bairro Menino Deus, mas uma nota no Correio do Povo não deixa dúvidas sobre a data correta: o automóvel circulou pela primeira vez nas ruas de Porto Alegre em 21 de abril de 1906. Abaixo, a publicação feita em 22 de abril de 1906, preservando a forma original:
"O sr. Nicoláu Grecco, em companhia de amigos, estreou hontem, percorrendo ruas e arrabaldes da cidade, o elegante e moderno automovel que acaba de mandar vir da Europa.
É elle da fabrica Dion-Bouton, dotado de um motor da força de 12 cavallos, de 2 cylindros, peso de 850 kilos e podendo desenvolver uma velocidade maxima de 55 kilometros por hora.
Esse automovel, posto aqui, custou cêrca de 8:000$000.
Foi elle montado e posto a funccionar, na casa de correcção, pelo sentenciado Constantino Manini, que ali cumpre a pena de 30 mezes de prisão, por crime de moeda falsa. Manini é possuidor de uma medalha de ouro ganha em uma corrida Paris-Madrid, entre profissionaes de automobilismo.
Ao passar pela praça Senador Florencio, o sr. Nicoláu Grecco, descendo do seu automovel, teve a gentileza de vir cumprimentar a redacção do Correio do Povo."
Quando passou pela Praça da Alfândega (antiga Praça Senador Florêncio), Nicola Greco conversou com a equipe do jornal, repassando as informações dessa notícia. O filho, Januário, não é citado.
O "chauffeur"
A notícia do Correio do Povo também esclarece a identidade do motorista: Constantino Manini. Em outras notícias, no jornal A Federação, também aparece como Manini Constantino, ordem invertida do prenome e do sobrenome.
Em 19 de janeiro de 1905, A Federação publicou que Rosalvo Azevedo, delegado de polícia de Rio Grande, prendeu em flagrante "passadores de moeda falsa, Manini Costantino e Alfonso Daquigiovanni". Cita que Manini serviu no exército italiano, condecorado após campanha militar na África. Curiosamente, a profissão declarada era "chauffeur", condutor de automóveis.
Os presos, escoltados pela Brigada Militar, foram levados de barco para Porto Alegre, onde ficaram na Casa de Correção. Em 19 de outubro de 1905, foi noticiada a condenação do réu a dois anos e oito meses de prisão por "introdução de moeda falsa".
Em 27 de agosto de 1907, o jornal A Federação publicou notícia da soltura do preso. O nome do italiano volta a aparecer em nota de 1909, no registro do casamento com Graciosa Carrasco.
Januário Greco
Januário Greco morreu em 1962, aos 79 anos. Ele e o irmão, João Baptista, foram proprietários do Cine Theatro Apollo. O empresário, que se apresentava como dono do primeiro carro da cidade, jamais aprendeu a dirigir. Em entrevista à Zero Hora, em 2006, Maria Ângela Greco Gastaldo, uma de suas filhas, explicou que o pai argumentava que, ao volante, teria de prestar atenção ao trânsito. Livre da direção, podia aproveitar a paisagem nos passeios que fazia frequentemente a bairros como Glória e Teresópolis, além de viagens mais longas a Gravataí e Viamão.
Ela lembrava do motorista apenas pelo apelido, Pepe, que posteriormente trabalhou como motorista particular de Greco e morou na casa da família.
O que aconteceu com o primeiro carro de Porto Alegre? Em 1956, Januário Greco contou que vendeu o veículo, em 1908, a "um negociante de Tupanciretã".
Foto

Em muitos livros e reportagens da imprensa, ao longo do tempo, uma foto feita pelo fotógrafo Virgilio Calegari é apresentada como o registro do primeiro carro que chegou a Porto Alegre. A imagem foi citada como sendo o automóvel da família Greco.
Em análise comparativa com as fotos preservadas pelos descendentes, inclusive uma utilizada no documento de 1922 carregado por Januário Greco, fica claro que não se trata do mesmo veículo.
Quando chegou o carro fotografado por Virgilio Calegari? Quem o comprou? É um tema que merece novas pesquisas de historiadores e apaixonados por automóveis para esclarecimento.





