Em 1750, os Sete Povos das Missões viviam um período de esplendor urbano e econômico. Quando somavam cerca de 30 mil habitantes, um acordo na Europa mudou o destino das cidades missioneiras. Pelo Tratado de Madri, em troca da Colônia do Sacramento, atualmente no Uruguai, os portugueses receberam dos espanhóis terras das reduções jesuíticas, hoje no noroeste do Rio Grande do Sul.
Os indígenas não aceitaram entregar tudo o que construíram aos seus inimigos. Desde o século anterior, os guaranis estavam a serviço da coroa espanhola, contra os portugueses, na defesa das fronteiras na América do Sul. No quarto episódio da temporada do programa Aconteceu no RS, o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eduardo Neumann conta como foi a Guerra Guaranítica.
As reduções eram cidades coloniais, com desenvolvimento urbano superior ao de muitos centros hispânicos da época. A resistência não foi apenas militar, mas também intelectual. Os guaranis, alfabetizados pelos jesuítas, utilizaram cartas e bilhetes para organizar a defesa do território.
Sepé Tiaraju
Entre vários líderes, o principal personagem da guerra foi Sepé Tiaraju. Sua figura, elevada à condição de herói nacional, mistura traços históricos comprovados com elementos lendários consolidados na cultura popular ao longo dos séculos.

Ele nunca foi um cacique. José Ventura Tiaraju era alferes (patente militar) e foi alçado ao cargo de corregedor da redução de São Miguel Arcanjo por sua liderança e habilidade estratégica. Ele era bilíngue - também falava espanhol - e defendia táticas de guerrilha para evitar o massacre de seu povo diante da superioridade bélica dos exércitos ibéricos. Ciente da desvantagem em confrontos diretos, evitava o campo aberto e preferia ações rápidas, com rondas e ataques pontuais para desgastar os exércitos inimigos.
Sepé morreu em combate no dia 7 de fevereiro de 1756. De acordo com a lenda, foi abatido após o cavalo cair ao pisar em um buraco de tatu na Sanga da Bica, hoje São Gabriel. A identificação do corpo foi possível porque ele carregava cartas e documentos de outros líderes indígenas.
Afinal, ele disse a célebre frase "esta terra tem dono"? O historiador esclarece que não há documento que comprove, mas ideias semelhantes aparecem em registros dos guaranis.
Três dias depois da morte de Sepé, ocorreu a Batalha de Caiboaté, o maior confronto da Guerra Guaranítica. Cerca de 1,5 mil indígenas foram mortos pelas tropas coligadas de Portugal e Espanha.
Era o início do declínio das reduções no Rio Grande do Sul. Os europeus tomaram as cidades guaranis em 1756. Em 1761, o Tratado de Madri foi anulado, permitindo o retorno de indígenas e missionários ao território.
Em 1768, a Espanha expulsou os jesuítas de seus domínios na América.
400 anos das Missões
Em 3 de maio de 1626, o padre jesuíta Roque Gonzales fundou a redução de São Nicolau, a primeira das 18 formadas na primeira fase das Missões no atual território gaúcho. O objetivo era reunir os povos nativos, que viviam dispersos, em centros urbanos organizados para o ensino de letras, números, ofícios e da doutrina cristã.
O contato inicial entre europeus e indígenas foi marcado por profundos desafios culturais. Gerou conflitos, já que nem todos os indígenas aceitaram o processo.
A primeira fase durou até 1639, quando padres e indígenas migraram para o lado direito do Rio Uruguai, atual território argentino, devido aos violentos ataques dos bandeirantes paulistas.
O retorno só ocorreu em 1682, dando início ao período dos Sete Povos das Missões, com a fundação de São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio.
Os jesuítas foram expulsos em 1768, mas permaneceram os guaranis já cristianizados, base importante na formação do povo gaúcho no Rio Grande do Sul.
Aconteceu no RS
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