A Guarda Nacional foi fundamental na defesa das fronteiras, na organização social, na administração e na política no Rio Grande do Sul. Criada em 1831, a milícia definia quem podia portar armas, quem comandava e quem obedecia. Ela foi uma alternativa mais barata ao Império do que a formação de um exército permanente.
Cidadãos ricos e pobres fizeram parte da organização, encarregada de defender a Constituição, a liberdade, a independência e a integridade do Brasil. Recrutava homens livres e libertos, com renda mínima, para proteger fronteiras e a costa. Em sua estrutura, surgiram figuras que lideraram guerras e a administração nas províncias.
A história destes "senhores da guerra" é tema do livro O sustentáculo do Império, do historiador gaúcho Miquéias H. Mügge. A obra, já publicada em português, será lançada no dia 8 de abril na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
A Guarda Nacional era ligada ao Ministério da Justiça, e não ao Ministério da Guerra, como o Exército. Os integrantes também atuaram como força policial improvisada em vários momentos. De 1831 a 1873, cada lugarejo do Brasil foi organizado em comandos superiores. Localidades passaram a ser administradas por coronéis comandantes superiores.
O pesquisador revela que parte significativa da população masculina — em torno de 30% dos homens adultos — participava da Guarda Nacional como soldados ou oficiais e, portanto, também podia votar nas eleições primárias. A instituição reforçou, na sociedade, a lógica da obediência. Ser membro significava estar acima daqueles que não eram guardas. Ser oficial significava estar acima dos praças. No topo, os comandantes superiores tornaram-se figuras centrais da política local.
— Essa arquitetura institucional organizava o cotidiano, dividindo a sociedade entre quem podia transitar, quem podia trabalhar, quem podia se agrupar à noite e quem podia ser preso. A ordem era produzida por homens armados cuja autoridade derivava de redes locais de poder, da política provincial e, claro, de suas relações com o governo central — explica Mügge.
Em nenhum lugar a Guarda Nacional foi tão presente na sociedade quanto no Rio Grande do Sul, onde se tornou a espinha dorsal da administração militar. A província viveu sob um regime de "paz armada", marcado por guerras civis, disputas de fronteira e mobilizações constantes. Conflitos como a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai dependiam quase inteiramente da capacidade de comandantes regionais de recrutar soldados em suas comunidades.
Entre os comandantes da Guarda Nacional no Rio Grande do Sul estiveram figuras como Bento Gonçalves, Bento Manoel Ribeiro e Luiz Manoel de Lima e Silva. O historiador conclui que a milícia mostra que instituições apresentadas como instrumentos de participação e defesa podem, na prática, reforçar desigualdades, fragmentar a sociedade e transformar a violência em rotina administrativa.
O livro O sustentáculo do Império está à venda no site da Editora Oikos e pelo WhatsApp (51 98114-9642).



