No início do século 20, Porto Alegre ganhou um moderno sistema de comunicação da hora certa. Uma luz vermelha no topo de prédios informava o horário para o ajuste dos relógios dos moradores. O serviço era prestado pelo Instituto Astronômico e Meteorológico, vinculado à Escola de Engenharia.
O jornal A Federação noticiou, em 19 de novembro de 1912, que o serviço da "hora local" havia sido estabelecido “definitivamente” na noite anterior. A lâmpada ficava na cúpula do Ginásio Júlio de Castilhos, belo palácio localizado na Avenida João Pessoa, ao lado da Escola de Engenharia. O prédio era o mais alto da região, podendo ser visto de pontos distantes.
O sistema funcionava todos os dias. A lâmpada vermelha era acesa às 19h55 e apagada, pontualmente, às 20h. Na época, os moradores ainda não contavam com a informação da hora por meios de comunicação como o rádio e a televisão.
O primeiro ponto de divulgação da hora certa ficava a poucos metros da sede do Instituto Astronômico e Meteorológico, inaugurado em 1908 para produzir trabalhos astronômicos, físicos e geodésicos, além da previsão do tempo e da hora certa. O prédio foi projetado pelo engenheiro e arquiteto Manoel Itaqui, que viajou à Argentina para conhecer outros observatórios.
Posteriormente, foi instalado um sinal no alto da Intendência — o Paço Municipal —, ao lado do Mercado Público, atendendo a região comercial e o porto. Outras lâmpadas foram colocadas no topo do prédio da Confeitaria Rocco, na esquina das ruas Riachuelo e Dr. Flores, e na Casa Masson, na Rua dos Andradas.
A hora certa passou a ser informada também pela manhã, com a luz acesa às 7h55 e apagada, pontualmente, às 8h. O instituto ainda fornecia o horário por telefone, atendendo ligações de todo o Estado.
O Museu Observatório Astronômico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que ocupa o prédio do antigo instituto, preserva a sala e os equipamentos do serviço da hora certa. A construção foi concebida seguindo as coordenadas geográficas. Com abertura do teto e das laterais em um ângulo de 180 graus, a equipe observava as estrelas à noite. A partir dessa posição, o astrônomo conseguia ajustar com precisão os relógios da sala.
Em visita ao observatório, no campus central da UFRGS, fui recepcionado pelo diretor, Gabriel Soares, e pela técnica Cidara Loguercio Souza. Eles apresentaram objetos usados no serviço da hora certa, como a Luneta Meridiana Gautier, o Cronógrafo Registrador Gautier e o relógio de pêndulo fabricado em 1907 por Charles Joseph, relojoeiro do Observatório de Paris. A Sala Meridiana, no segundo andar, possuía seis relógios para calibração, medição e manutenção da hora, adquiridos de fabricantes da França, Alemanha e Suíça.
Entre 1958 e 1990, o observatório forneceu o sinal horário mais preciso do Estado, de hora em hora, por meio da Rádio da Universidade. Com a evolução tecnológica, o serviço acabou desativado.
Hoje, a hora oficial no Brasil é determinada pelo Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.
Visitação
O Museu Observatório Astronômico da UFRGS (Avenida Osvaldo Aranha, 99) oferece visitas guiadas gratuitas às terças e quintas-feiras, às 18h e às 20h, e às quartas-feiras, às 14h, 16h, 18h e 20h.
Balão da hora certa
Outro serviço de hora certa funcionou anteriormente no Forte Apache, prédio junto à Praça da Matriz, onde hoje fica o Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Em 1892, teve início a comunicação com o uso de balão. Na época, o Observatório Meteorológico funcionava no local.




