O Pão dos Pobres restaurou uma área especial do prédio no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. O projeto de restauração das fachadas internas concluiu o trabalho no piso de ladrilhos hidráulicos, produzidos há quase cem anos dentro da própria instituição.
Uma fábrica de mosaicos funcionou no complexo até a década de 1940. Com 130 anos, a Fundação O Pão dos Pobres de Santo Antônio é historicamente dedicada ao ensino profissionalizante.
O arquiteto responsável pelo gerenciamento da obra, Lucas Volpatto, do Studio 1 Arquitetura, explica que o restauro do piso do corredor de arcos incluiu limpeza de conservação e manutenção, além da substituição pontual de peças.
A Oficina de Mosaicos ficava no terreno hoje ocupado pelo Colégio La Salle Pão dos Pobres. A fábrica barateou os custos da obra, além de fornecer produção para clientes externos.
— Tudo indica que a oficina foi criada durante as obras do grande edifício projetado por José Lutzenberger, em 1925 — explica o historiador Pedro Meirelles.
Na revisão e ampliação do projeto, em 1929, Lutzenberger incluiu um novo pavilhão que deveria ser ocupado por um liceu (instituição de ensino), formado com doações de Luiz Lara da Fontoura Palmeiro e Maria Luiza Carvalho Palmeiro. O casal deixou em testamento uma grande quantia destinada ao "ensino e aprendizagem dos órfãos".
Juntamente com a Oficina de Mosaicos, funcionaram no Liceu de Artes e Ofícios Luiz Palmeiro atividades de marcenaria, funilaria, tipografia e sapataria.
A fábrica de mosaicos, sob administração do artífice Ernesto Paensens, forneceu produtos para diversas igrejas, escolas e repartições públicas. Funcionou continuamente entre o final dos anos 1920 e 1943, quando foi fechada devido à dificuldade de obtenção de cimento durante a Segunda Guerra Mundial e aos riscos que o trabalho oferecia aos órfãos.
O projeto Um Pão para partilhar: Restauração das fachadas internas da Fundação O Pão dos Pobres de Santo Antônio é financiado pela Lei de Incentivo à Cultura/Pró-Cultura RS do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, com patrocínio de Vero, Sulgás, Grupo Equatorial, Vitlog Transportes e Cia Zaffari. A captação de patrocínio é de Cecília Muccillo Daudt (Práxis Gestão de Projetos), e a gestão do projeto está a cargo da Cult Assessoria e Projetos Culturais.

Pão dos Pobres
O Pão dos Pobres está situado em uma área onde viveu uma das famílias mais ricas de Porto Alegre no século 19. O palacete de João Baptista da Silva Pereira e Maria Emília da Silva Pereira, o barão e a baronesa de Gravataí, ficava às margens do Guaíba.
A primeira menção documentada ao palacete é de 1845. Encerrada a Revolução Farroupilha, o imperador Dom Pedro II veio a Porto Alegre, acompanhado de grande comitiva. Segundo o jornal O Imparcial, “na magnífica e elegantemente ornada casa do Sr. Comendador João Baptista da Silva Pereira” ficaram hospedados o chefe de esquadra John Pascoe Greenfell e seus oficiais.
O comendador fez fortuna no comércio, inclusive de escravizados. Morreu em 1853, um ano depois de receber o título de barão. Com o falecimento do marido, a baronesa ficou com a chácara. Em 1879, teria loteado parte das terras herdadas, permitindo à Câmara Municipal a abertura de ruas. A casa foi alugada, abrigando a Escola de Infantaria e Cavalaria e a Enfermaria Militar. A baronesa morreu em 1888.
Os herdeiros continuaram alugando o imóvel até 1895, quando foi adquirido pelos barões de Nonoai, que provavelmente nunca residiram no casarão. Um incêndio o destruiu completamente em 1899.
Poucos meses depois, o cônego José Marcellino de Souza Bitencourt assinou a escritura de compra do terreno para implantar o Abrigo das Famílias Pobres e Honestas, antigo nome do Pão dos Pobres. Ele é o fundador da instituição, criada em 1895. Inicialmente, oferecia esmolas, pão bento e roupas a pessoas em situação de necessidade na catedral.
Ao se transferir para a Cidade Baixa, a instituição ocupou prédios não atingidos pelo incêndio na antiga chácara da baronesa. Em 1904, foi construído um imóvel de um pavimento para moradia de famílias. Em parte desse prédio, funciona hoje a capela. Em 1930, após cinco anos de obras, foi concluído o maior edifício, de frente para a Avenida Praia de Belas.



