A lenda da Noiva da Lagoa dos Barros faz parte do imaginário popular do Litoral Norte. Em diferentes versões, moradores e motoristas relatam a aparição de uma jovem vestida de branco às margens da freeway. Por trás da lenda, está uma história real, um feminicídio. Maria Luiza Häussler, 17 anos, foi assassinada pelo ex-namorado Heinz Werner João Schmeling, 19 anos, em 1940. O corpo foi jogado no fundo da lagoa.
O caso foi resgatado na exposição “A Noiva da Lagoa: um crime que virou lenda”, no Museu Antropológico Caldas Júnior, em Santo Antônio da Patrulha. A instituição recebeu acervo familiar com fotografias, três cartas, um caderno de desenhos e outro de mensagens, incluindo uma poesia escrita em alemão por Heinz, em 1938. A doação foi feita por Ingrid Emmer, que foi casada com o irmão da vítima.
O próximo passo será a criação de um memorial para Maria Luiza, conhecida como Lisinka.
— Além de preservar esta história tão presente na região, o objetivo é promover ações educativas em relação aos feminicídios e à violência contra as mulheres — explica o presidente da Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior, Rafael Barcela.
Visitantes da exposição também estão contribuindo com novas informações sobre o crime e a lenda. O museu fica na Avenida Borges de Medeiros, 427, no bairro Cidade Alta. A visitação gratuita pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h; e nos sábados e domingos, das 14h às 18h.
O crime
Maria Luiza Häussler foi assassinada pelo ex-namorado em Porto Alegre, na madrugada de 18 de agosto de 1940. Heinz Werner João Schmeling não aceitava o fim do relacionamento. Eles nunca foram noivos.
Moradora da Rua Dona Laura, Lisinka era estudante de artes. Por dois anos, namorou Schmeling. Em uma noite de sábado, 17 de agosto de 1940, ele a reencontrou em um baile na Sociedade Germânia, no bairro Moinhos de Vento. Na madrugada, os dois desapareceram.

Uma prima que a acompanhava voltou para casa sozinha. No domingo, o desaparecimento foi comunicado à polícia. O corpo da adolescente foi localizado três dias depois, em Santo Antônio da Patrulha, no fundo da Lagoa dos Barros, amarrado a tijolos.
Pela investigação policial, Schmeling matou a ex-namorada e jogou o corpo na lagoa. Ele foi localizado no bairro Belém Velho, em Porto Alegre, portando um revólver e ferido por um disparo. No hospital, apresentou versões contraditórias sobre o desaparecimento, antes de indicar a localização do corpo.
A autópsia, realizada pelos médicos Celestino Prunes e José Maria Santiago Wagner, apontou que a adolescente foi morta com um tiro no coração. A polícia concluiu que Maria Luiza foi assassinada ainda em Porto Alegre.
Schmeling admitiu apenas a ocultação do cadáver, negando a autoria do crime. Condenado a 12 anos de prisão, acabou solto após cumprir metade da pena. Em 1946, obteve liberdade condicional e partiu para o Rio de Janeiro.
A lenda
Na lenda da Noiva da Lagoa, uma jovem vestida de branco aparece à beira da Lagoa dos Barros, às margens da freeway, entre Santo Antônio da Patrulha e Osório. Moradores e motoristas, principalmente caminhoneiros, relatam que já a viram durante a noite. Não está claro nas pesquisas quando surgiu a lenda.
A ERS-030, a Estrada Velha, era o principal caminho entre Porto Alegre e o Litoral Norte até o início da década de 1970. Naquela região, perto da antiga fábrica de açucar Agasa, a rodovia passava perto da lagoa. Em 1973, foi inaugurada a BR-290, a freeway.



