Um importante acervo da comunidade afrodescendente do Rio Grande do Sul chegou à Alemanha em 1880. Os 67 objetos sagrados foram levados pelo alemão Wilhelm Pietzcker, negociante nas cidades de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Ele teria comprado as peças apreendidas pela polícia durante uma cerimônia de culto aos orixás.
Os objetos religiosos foram doados ao Museu Real de Etnologia, atual Museu Etnológico de Berlim. Cadastradas como parte de um ritual de "mago negro", as peças integram a Coleção Pietzcker. São itens como machado de Xangô (Oxé), recipiente para armazenamento de assentamentos religiosos (Igbá) e sineta ritual (Adjá).
Em 2025, pesquisadores e professores iniciaram um movimento para tentar a repatriação do material. O grupo proponente é formado por Fernanda Oliveira, Jovani de Souza Scherer, Lúcio Menezes Ferreira, Nina Fola e Vinicius Pereira de Oliveira. Eles criaram um perfil no Instagram (@colecaobatuquers) e promovem uma série de atividades, como exposições e rodas de conversa, agregando mais pessoas.
O movimento defende que esses artefatos devem ser conhecidos por seus legítimos herdeiros: a comunidade do axé e a população negra brasileira. Os principais objetivos são renomear a Coleção Pietzcker para Coleção Batuque, disseminar o conhecimento sobre o material e buscar a repatriação.
— Acreditamos que essas peças não pertencem apenas ao Batuque. Pertencem à história do povo negro no sul do país. É um patrimônio que foi silenciado e que agora volta a ser contado pelas próprias vozes que o originaram. Discutir, divulgar e repatriar são formas de restituição simbólica e reparação — explica Vinicius Oliveira, historiador e professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul).
A cidade gaúcha onde foi feita a apreensão no século 19 ainda é desconhecida. Na época, eram frequentes as operações policiais para recolhimento de materiais sob acusação de feitiçaria.

O grupo buscará apoio do Ministério da Igualdade Racial para acionar a embaixada brasileira em Berlim na tentativa de trazer o acervo de volta. Ainda não foi definido o local que poderá abrigar e expor as peças no Rio Grande do Sul.
A partir da década de 1830, houve crescimento dos povos vinculados às tradições de culto aos orixás entre a população africana no Rio Grande do Sul. A chegada em grande número de minas, nagôs e jejes, os povos iorubás ou gbe-falantes, causou impacto demográfico e simbólico nas senzalas. A dominação escravista não os impediu de manter tradições africanas, incluindo o Batuque de Nação.
O movimento também destaca que, ao longo do século 19, parte dos africanos libertos que viviam em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre realizou o caminho de volta à África, especialmente para Lagos, na atual Nigéria. Eles ficaram conhecidos como comunidade agudá. Muitos se tornaram viajantes do Atlântico, circulando entre os portos de Rio Grande, Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Lagos.




