O Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial em 22 de agosto de 1942. O presidente Getúlio Vargas declarou apoio aos Aliados contra a Alemanha e a Itália após ataques a navios brasileiros. A adesão gerou temor de ataques em cidades brasileiras, que se prepararam para o pior dos cenários. Em Porto Alegre, que estava com pouco mais de 270 mil habitantes, foram montados abrigos antiaéreos e realizados exercícios de blecaute.
Com base em notícias publicadas pelo jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, o Almanaque Gaúcho resgata uma parte dessa história. A maioria dos textos foi enviada pela reportagem da Agência Brasil e também publicada em outros jornais do país.
Uma comissão de defesa foi formada na cidade. Na edição de 12 de setembro de 1942, foi noticiado que o governo do Estado e a prefeitura de Porto Alegre decidiram pôr em prática, imediatamente, o plano destinado a obras para a defesa antiaérea. O interventor federal no Estado, Cordeiro de Farias, tratou ainda de questões sobre o reforço do Corpo de Bombeiros e a aquisição de material cirúrgico.
O primeiro blecaute abrangeu apenas a parte central. Todas as luzes deveriam ser desligadas depois das 22h30. Durante 30 minutos, sirenes soaram pela cidade. Quem fosse flagrado descumprindo a ordem era notificado.
Outro exercício, para toda a cidade, foi realizado uma semana depois. O teste de blecaute também foi feito em outros pontos do Brasil para dificultar bombardeios noturnos em caso de ataques aéreos alemães.
Abrigos antiaéreos
A Comissão de Defesa Passiva Antiaérea também decidiu formar brigadas populares para ajudar os bombeiros. Em 26 de setembro, foi noticiado que o prefeito Loureiro Silva determinou "que sejam imediatamente iniciadas as obras de proteção às arcadas do Viaduto Borges de Medeiros, primeiro passo para o trabalho de defesa civil da população". O viaduto da Avenida Borges de Medeiros ainda não tinha o nome Otávio Rocha.
Em reunião no início de outubro, presidida pelo prefeito, ficou deliberada a "construção imediata de 22 abrigos antiaéreos nos edifícios principais da cidade, sendo as obras custeadas pelos respectivos proprietários". Pela projeção, mais de 15 mil pessoas poderiam se abrigar nesses locais, incluindo o viaduto e os subsolos de edifícios como Vera Cruz, Nunes, Sul-América, Sloper, Bastian Pinto, Banco Nacional do Comércio, Galeria Chaves, Palácio do Comércio, Novo Hotel Jung, Terra Lopes, Hotel Carraro e Grande Hotel.
O médico Ronaldo Bastos, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, lembra de ouvir o pai contar a história do abrigo antiaéreo do Viaduto Otávio Rocha. O representante comercial Walter Melecchi Bastos (1915-1984) morava na Avenida Borges de Medeiros e deixou um importante registro. A fotografia mostra o muro construído para oferecer proteção em caso de bombardeio. No negativo, consta a data de 3 de outubro de 1942.
Walter relatava que chegou a participar de exercício realizado no abrigo.
— As pessoas ficavam meia hora lá dentro depois de tocar a sirene. Ficou uma paranoia na cidade, gerando pânico. Imaginavam que o abrigo fosse resolver — comenta Ronaldo Bastos.
A cidade não foi bombardeada, por isso a eficiência dos abrigos nunca pôde ser testada.
"Batalhão de Suicidas"
Em meio aos preparativos para a guerra em Porto Alegre, uma notícia chamou a atenção. Em 7 de outubro de 1942, o Diário de Notícias publicou no Rio de Janeiro:
"No Rio Grande do Sul - disseram telegramas de Porto Alegre - está-se organizando, para a guerra, um 'batalhão de suicidas'. É constituído por uma cinquentena de rapazes entusiasmados, dispostos a, em circunstâncias excepcionais, morrer pela Pátria, em luta com o inimigo. Compreende-se o que possa isso vir a ser. Em caso de necessidade, os voluntários da morte aceitariam incumbências em cujo desempenho sacrificariam seguramente a vida".



