A vida de Pierre François Alphonse Mabilde é digna de um filme. Em 1894, o engenheiro civil belga morreu em São Leopoldo, no Vale do Sinos. Ele viveu em Rio Grande, Porto Alegre e em colônias alemãs no Estado. Poliglota e naturalista, trabalhou para o governo da província e para o Império. Capturado por indígenas, deixou importante relato sobre a vida dos Coroados.
A socióloga Karen Bruck resgatou a história do trisavô no livro Um belga no Brasil: Alphonse Mabilde entre colonos alemães e indígenas coroados (Editora Lumina). Com base em farto material guardado em uma caixa de papelão por uma tia, trouxe à tona também detalhes da vida dos colonizadores e dos povos originários. Mabilde deixou manuscritos, incluindo 64 apontamentos sobre indígenas.
Aos 26 anos, o jovem engenheiro fugiu da Bélgica. Ele era republicano e temia ser preso após protestos contra uma ordem do rei Leopoldo I, que estendeu em um ano o serviço militar. Com a ajuda do pai, embarcou em um navio rumo ao Brasil em 1833. No Rio de Janeiro, não demorou a conseguir emprego. Seguiu para Rio Grande, contratado para estudos destinados a melhorar a barra do porto.
O trabalho foi afetado pela eclosão da Revolução Farroupilha. O belga deixou a cidade portuária rumo a Porto Alegre e entrou na capital gaúcha em meio à ocupação farroupilha.
Em 1844, casou-se com a alemã Anna Maria Ertel. O casal decidiu morar em São Leopoldo, colônia alemã em rápido desenvolvimento.
Coroados
Durante uma cavalgada rumo às picadas da encosta da Serra, viveu uma experiência que mudou sua vida. O engenheiro foi capturado por um grupo de indígenas. Aprisionado em uma choupana coberta por galhos, observou e anotou o cotidiano da aldeia.
Eles tinham cabelos pretos, finos, lisos e muito abundantes, com o centro da cabeça calvo, formando uma "coroa". O grupo era formado por cerca de 80 indivíduos, a grande maioria homens. O pinhão era o principal alimento, acompanhado de frutas e da caça de pequenos animais.
Mesmo no frio do inverno, todos andavam nus. O cacique ficava no maior barraco e era o único que podia ter mais de uma esposa.
O estrangeiro presenciou o nascimento de crianças. A gestante, na época do parto, ficava isolada em um barraco. Se fosse o primeiro filho, uma anciã explicava o que deveria fazer. Depois do parto, outra mulher levava o recém-nascido ao arroio mais próximo para lavá-lo em água fria.
O belga teve como carcereiro o jovem Ucuity, filho do cacique. Os dois criaram um vínculo de amizade. Ucuity ensinou seu idioma ao estrangeiro, que deu lições de português ao indígena. O jovem contou que o grupo permanecia pouco tempo em um mesmo local. Era uma forma de sobreviver aos ataques de tribos inimigas e dos brancos.
Depois de um tempo, Mabilde convenceu o carcereiro a ir conhecer a cidade. Os dois caminharam por dois dias até chegar à vila de São Leopoldo. Ucuity levou junto uma onça de estimação.
O indígena passou a morar com o casal. Em um momento trágico para Mabilde, Ucuity morreu atacado pela própria onça. Pouco tempo depois, outra perda dolorosa: Anna Maria ficou doente e morreu.
Família e trabalho
Viúvo, o belga casou-se com a cunhada, Maria Luiza, em 1848. No segundo casamento, teve seis filhos. Em 1874, voltou a Porto Alegre e trabalhou como engenheiro de obras públicas.
Alphonse Mabilde morreu aos 86 anos. Desempenhou papel fundamental na fixação dos imigrantes alemães, tendo sido agrimensor em São Leopoldo e responsável pela construção de estradas e pontes. Também foi tenente-coronel da Guarda Nacional e diretor-geral das colônias de Santa Cruz e São Lourenço do Sul. Sempre manteve boa relação com povos indígenas.
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