O Mercado Público é espaço de compras, lazer, religiosidade, encontros e memórias de moradores e visitantes de Porto Alegre. O Almanaque Gaúcho publica uma série de fotos de uma edição da Revista do Globo de 80 anos atrás. Acompanhado do fotógrafo Ed Keffel, o repórter José Amádio chegou ao popular ponto do coração da cidade no final de uma madrugada da primavera de 1946.
O pátio interno do grande prédio ainda era descoberto. Os telhados ficavam restritos às bancas. Os clientes circulavam pelos corredores protegidos apenas por toldos. A cobertura completa só seria construída na reforma dos anos 1990.
Na crônica sobre a rotina do Mercado Público, o jornalista descreve o cenário do início de um dia. Ele chegou por volta das 5h30, quando os quatro portões de ferro ainda estavam fechados. O público só conseguia acessar bares e cafés com portas voltadas para a rua.
No final da madrugada, notívagos ainda vagavam no entorno do prédio. Uns não queriam ir embora, enquanto outros chegavam. Verdureiros, com suas carroças, produziam um “barulho ensurdecedor contra os paralelepípedos”.
Um tango tocava no Café Java. O jornalista entrou e conseguiu uma mesa ao fundo. O garçom contou que a noite foi calma, apesar de um marinheiro ter agredido outro perto da meia-noite.
Quando os portões se abriram, consumidores lotaram os corredores. Do lado de fora, um ruído chamou a atenção do repórter. Era uma colisão entre um caminhão da limpeza urbana e uma carroça de verduras.
O repórter descreve a presença de vários estrangeiros no comando das bancas. Em fotos, apresenta alguns deles, infelizmente, sem divulgação dos nomes.
Amádio conta que ladrões costumavam agir no entorno do Mercado Público. O texto termina com uma crítica às condições do prédio, descrito como “velho e sujo como um casarão abandonado”.
Construção do Mercado Público

O Mercado Público de Porto Alegre foi inaugurado em 3 de outubro de 1869. Na época, o prédio fica na beira do Guaíba.
O governo da província autorizou a Câmara Municipal a contratar a construção do novo mercado e de uma doca ao lado. Vencedor da licitação, o empreiteiro Polidoro Antônio da Costa iniciou a obra em agosto de 1864. Pelo contrato, o prédio deveria ser erguido em três anos, mas as obras se arrastaram por mais de cinco anos.
No livro Porto Alegre: Guia Histórico, Sérgio da Costa Franco descreve que, em maio de 1869, o construtor requereu a entrega da obra, aceita pela Câmara Municipal, que condicionou à conclusão de "pequenos trabalhos" que faltavam. Uma numerosa comissão de moradores da Praça do Paraíso (Praça XV de Novembro) ficou responsável pelos festejos de inauguração em outubro.
O novo mercado ficou a poucos metros do primeiro mercado. O prédio foi aberto ao público no início de 1870, com obras ainda inconclusas.
A construção original era de um pavimento, com quatro torreões nas extremidades. Na doca ao lado, onde fica hoje o Terminal Parobé, atracavam as pequenas embarcações. O entorno estava sempre agitado pela circulação de carroças e pessoas.
O segundo pavimento ficou pronto em 1913. Inundado pelas grandes enchentes da cidade, o prédio também tem a história marcada por incêndios. O último foi na noite de 6 de julho de 2013.


