A gruta da Maria Degolada está cercada por casas na Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre. O local é um espaço de devoção a Maria Francelina Trenes, uma jovem assassinada pelo companheiro no fim do século 19. O "túmulo de sangue" — denominação usada pelo povo no passado — foi construído sob uma figueira, no ponto onde a jovem de 21 anos foi morta.
O corpo nunca foi enterrado no morro. Em fotografias publicadas pela Revista do Globo, em 1944, a vila ainda não estava formada ao redor da figueira. A paisagem remetia ao cenário da época do feminicídio.
O crime
Maria Francelina foi assassinada por Bruno Soares Bicudo, 29 anos, soldado da Brigada Militar. Em algumas versões sobre o caso, a jovem aparece como prostituta, mas pouco se sabe sobre o seu passado. No registro de óbito, ela consta como alemã, branca e solteira. No campo referente à profissão, não há informação. Os nomes dos pais são ignorados.
O corpo foi sepultado no Cemitério da Santa Casa. No processo, Maria foi apresentada como “amásia” do assassino, ou seja, companheira sem formalização da união.
Os jornais da época deram ampla cobertura ao crime. Em 1994, o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul publicou o livro Maria Degolada: mito ou verdade? (Editora EST), reunindo documentos oficiais e contribuindo para a compreensão do caso que se transformou em lenda.
O crime ocorreu em 12 de novembro de 1899, um domingo. No morro em frente ao Hospício São Pedro, quatro soldados do 1º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar participavam de um churrasco, acompanhados de mulheres. No processo, os brigadianos Felisbino Antero de Medina, Francisco Alves Nunes e Manoel Antônio de Vargas aparecem como testemunhas.
Após o almoço, por volta das 15h, Bicudo matou Maria por ciúmes. O soldado confessou o crime, alegando que a companheira tentou agredi-lo com um pedaço de pau e um ferro. Os colegas confirmaram essa versão. Nunes relatou que a crise de ciúmes começou quando Maria disse que “tinha outro homem com quem pernoitar”.
Durante a discussão, os brigadianos teriam retirado o porrete e o ferro das mãos da mulher. Ao acreditarem que a situação estava controlada, afastaram-se para preparar café. O casal ficou sozinho em um ponto mais distante. Quando voltaram para chamar Bicudo, os colegas afirmaram tê-lo visto esfaqueando Maria no pescoço.
O soldado foi preso imediatamente. Menos de três meses depois, em 8 de fevereiro de 1900, foi julgado pelo Tribunal do Júri, presidido pelo juiz Fausto Neves de Souza. Condenado a 30 anos de prisão com trabalho na Casa de Correção de Porto Alegre, foi expulso da Brigada Militar.
O documento de entrada no presídio registrou as características físicas do condenado: 1,64 metro de altura, pardo, cabelos e barba pretos, sobrancelhas ralas, testa grande, olhos negros, nariz chato, boca grande e orelhas regulares. Era natural de Uruguaiana.
O assassino morreu na prisão em 16 de setembro de 1906. O médico da cadeia atestou como causa da morte uma inflamação nos rins.
Devoção
Com o tempo, começou a devoção a Maria Degolada, também chamada de Maria da Conceição, vista como uma santa popular. O povo fazia romarias ao topo do morro para pedir ajuda e agradecer por graças alcançadas.
A vila cresceu no entorno do "túmulo de sangue". A gruta, que fica em um beco na Rua Irmã Nely, passou por revitalização no ano passado. A figueira não está mais lá, mas segue a fé nos milagres de Maria Degolada.




