Os brasileiros viveram um misto de euforia e confusão com o Plano Cruzado. Em 28 de fevereiro de 1986, o presidente José Sarney anunciou um pacote radical para derrubar o dragão da inflação. Uma nova moeda, o Cruzado, substituiu o Cruzeiro. O congelamento de preços gerou tumulto no comércio e surgiram os “fiscais do Sarney”, brasileiros e brasileiras que percorriam o comércio.
Num pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, o presidente da República anunciou o programa de estabilização da economia, criando a nova moeda, congelando preços e instituindo a escala móvel de salários. Naquela sexta-feira, há 40 anos, os bancos ficaram fechados.
— Posso me dirigir a você, brasileiro ou brasileira, para investi-lo na função de fiscal do presidente. Ninguém poderá, a partir de hoje, praticar a indústria da remarcação — convocou Sarney.
Os bancos reabriram ao público na tarde de 3 de março, uma segunda-feira. Os caixas passaram a repassar cédulas de Cruzeiro carimbadas com o novo valor em Cruzados. A conversão era simples: bastava cortar três zeros das cédulas.
Nos dias seguintes, os jornais descreveram que a mobilização de consumidores gerou excessos, com conflitos e destruição de mercadorias. Em todo o País, agentes da Polícia Federal trabalharam ao lado de fiscais da Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab), efetuando prisões de gerentes e outros funcionários de estabelecimentos comerciais, especialmente supermercados, flagrados ao remarcar produtos.
O governo divulgou uma lista de produtos básicos com preços congelados, incluindo combustível, carne, ovos, arroz, feijão e outros alimentos. Com a tabela em mãos, a população tomou os corredores dos supermercados. Muitos usavam um broche verde-amarelo: “Eu sou fiscal do Sarney”. Quando os preços não batiam, denunciavam o reajuste.

A fiscalização também descobriu casos de comerciantes que escondiam produtos. O Plano Cruzado gerou forte engajamento popular e, por alguns meses, funcionou. A inflação caiu e o consumo disparou. A euforia durou pouco tempo.
Não demorou para o país enfrentar o desabastecimento de mercadorias e, consequentemente, o retorno dos reajustes de preços. A nova moeda acabou engolida pelo dragão da inflação.
Em fevereiro de 1986, a inflação pelo IPCA, calculado pelo IBGE, foi de 14,36%. O índice caiu entre março e novembro, mas voltou a ter dois dígitos em dezembro daquele ano.
O Cruzado foi substituído pelo Cruzado Novo em 16 de janeiro de 1989. O brasileiro ainda teria outras duas moedas — Cruzeiro e Cruzeiro Real — antes do lançamento do Plano Real, em 1º de julho de 1994.




