Prestes a completar 150 anos, a marca de produtos gráficos Rotermund está saindo do mercado. Os itens para o varejo e personalizados para empresas vinham sendo fabricados nos últimos anos pela empresa Estação Gráfica, em São Leopoldo. As últimas unidades foram produzidas em novembro de 2025. Famosa pelas agendas de papel, a Rotermund é uma das marcas mais tradicionais do Brasil no setor.
A Gráfica Rotermund foi fundada em 1877 pelo imigrante alemão Wilhelm Rotermund, pastor luterano, professor e jornalista. A empresa faz parte da história de São Leopoldo, no Vale do Sinos. Ao completar 140 anos, em 2017, ainda mantinha cerca de 100 empregos diretos e indiretos em uma fábrica no Morro do Espelho. Cadernos de anotações, calendários de parede e de mesa, blocos de notas e as tradicionais agendas integravam a linha de produção. Em 2020, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica reconheceu a Rotermund como a gráfica mais antiga em atividade no país.
Com o fechamento das oficinas da WRSA Indústria Gráfica, último nome da Rotermund, a Estação Gráfica firmou, em 2020, contrato para uso da marca, pagando royalties e assumindo as operações industrial e financeira. Renata Rotermund, bisneta do fundador, permaneceu apenas na área comercial.
Em 2024, quando começava a transição também da parte comercial, a enchente inundou a indústria no bairro Rio dos Sinos. A Estação Gráfica precisou recomeçar e manteve a produção da linha de produtos Rotermund. Renata Rotermund morreu em agosto de 2025.
O diretor comercial da Estação Gráfica, Conrado Andrade, afirma que se tornou inviável a continuidade da linha de produtos devido ao imbróglio jurídico que envolve a marca após o falecimento da bisneta do fundador e o fechamento da tradicional indústria.
— A gente queria muito ficar com a marca. Tenho um envolvimento emocional, porque meu pai e meu avô trabalharam na Rotermund. Estamos em luto com toda a história — lamenta Andrade.
Os produtos que estão hoje nas papelarias, como as agendas de 2026, são os últimos fabricados pela Estação Gráfica com a marca Rotermund. A empresa seguirá atuando no setor gráfico, inclusive com a produção de agendas, mas sob uma nova marca: Verrocchio.
A coluna não conseguiu contato com a família Rotermund para saber se existe a possibilidade de a marca voltar ao mercado no futuro.
Trajetória da Rotermund
O alemão Wilhelm Rotermund chegou a São Leopoldo, ao lado da esposa Marie Brabandt, em dezembro de 1874. Formado em Teologia e doutor em Filosofia, o imigrante era pastor luterano, professor e jornalista. No Vale do Sinos, desempenhou papel importante como líder religioso e comunitário, além de fundar uma das mais tradicionais indústrias gráficas do Brasil.

Rotermund introduziu em sua comunidade uma espécie de ensino obrigatório e apostou fortemente na formação escolar. Logo percebeu uma carência: a falta de livros didáticos. Em 1877, abriu a Livraria Evangélica W. Rotermund. Inicialmente, os livros eram importados da Alemanha. Pouco tempo depois, passou a editar as próprias obras. Rotermund publicou, por exemplo, uma cartilha voltada à melhoria da pronúncia do português nas escolas da imigração.
Como jornalista, foi redator do jornal Der Bote (O Mensageiro), de São Leopoldo. Em 1878, adquiriu o parque gráfico da publicação. Posteriormente, fundou e editou o jornal Deutsche Post (Correio Alemão), que circulou em língua alemã entre 1880 e 1928.

Com a herança deixada pelos pais, em 1891, Rotermund investiu em novos equipamentos e ampliou a oficina gráfica. A sede cresceu, vendedores passaram a percorrer as colônias e, das prensas, saíam livros, jornais e materiais escolares.
Em 1915, a empresa foi reorganizada. A esposa Marie e o amigo Erich Utpott ingressaram como sócios da Rotermund & Co. A gráfica passou a produzir, em 1923, as agendas que fizeram parte da vida de gerações de brasileiros.
Wilhelm e Marie vieram ao Brasil com a intenção de permanecer pouco tempo, mas o pastor voltou ao país de origem apenas duas vezes, em visita. Fez questão de se naturalizar brasileiro, em 1887. Morreu em consequência de câncer de pele, em São Leopoldo, em 5 de abril de 1925. A trajetória é contada no livro Wilhelm Rotermund, Seu Tempo – Suas Obras (Oikos Editora), de Martin Dreher.
A família seguiu no negócio. A indústria, fundada ainda no Império, sobreviveu a revoluções, a duas guerras mundiais, a mudanças de regimes políticos e a sucessivos planos econômicos. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou proibida de imprimir livros didáticos ou jornais em alemão.

Ao completar 140 anos, a Rotermund mantinha cerca de 100 empregos diretos e indiretos em uma fábrica de 2,5 mil metros quadrados, no Morro do Espelho, em São Leopoldo.
Depois do fechamento da fábrica, a marca continuou no mercado, a partir de 2020, com a produção da empresa Estação Gráfica.





