O médico Hélio Franco Fernandes integrou a missão médica brasileira enviada à França na Primeira Guerra Mundial. O grupo chegou em 1918 para o atendimento dos feridos nas batalhas, mas acabou auxiliando também a população civil durante a epidemia de gripe espanhola. Depois do fim do conflito, o médico viveu uma história de amor com origem na infância, no interior do Rio Grande do Sul.
Nascido em 1894, Hélio cresceu entre Santa Maria e Cachoeira do Sul. Os pais, Daniel e Júlia, eram amigos de um casal francês, Louis Émile e Margueritte Marchais, que morava no Estado. Louis era contador da Compagnie Auxiliaire des Chemins de fer au Brésil, empresa responsável pela estrada de ferro.
Em Santa Maria, em 1900, nasceu Suzanne Marie Marchais, filha do casal francês. Os padrinhos foram Daniel e Júlia.
— Na primeira visita, o pequeno Hélio, então com 6 anos, beijou a mão da recém-nascida e, apaixonado, a pediu em casamento, o que, entre sorrisos e ternuras, foi muito bem aceito — conta Mariluh Fernandes, neta de Hélio e Suzanne.
A família Marchais retornou pouco tempo depois à França, mantendo a comunicação por cartas com os amigos gaúchos. A vida seguiu, e os filhos cresceram. Hélio cursou medicina em Porto Alegre e fez doutorado no Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de ingressar na missão brasileira.
Na França, após o fim da guerra, o médico aproveitou para visitar a família Marchais. Hélio ficou impactado pela beleza de Suzanne. O bebê que havia visto no berço já era uma mulher. O amor foi correspondido. Em 6 de janeiro de 1923, na Igreja Saint-Vincent-de-Paul, os dois se casaram.
O casal foi morar em Tupanciretã, pequena cidade do interior do Estado. Ela era enfermeira. Ele foi quatro vezes prefeito do município e construiu, com a colaboração da comunidade, o Hospital de Caridade Brasilina Terra. Na cidade gaúcha, criaram os filhos Cláudio e Marina.
Hélio morreu em 1986, e Suzanne, em 1993. Eles completaram 63 anos de casamento e adoravam contar essa história de amor.

Hospital Franco-Brasileiro
Em 18 de agosto de 1918, a missão brasileira partiu de navio do Rio de Janeiro. Chefiada pelo médico e deputado federal José Thomaz Nabuco Gouveia e orientada pelo general Napoleão Aché, era composta por 86 médicos. Cinco médicos do Exército e outros cinco da Marinha estavam no grupo. Os outros foram convocados e comissionados em patentes militares.
A missão foi integrada ainda por 17 estudantes de medicina, 15 esposas de médicos que atuaram como enfermeiras, 16 pessoas de outras formações e 30 praças do Exército para o serviço de guarda.
Quando chegaram à França, em 27 de setembro de 1918, os brasileiros foram divididos em dois contingentes. O menor viajou para cidades do interior. O grupo maior abriu, em prédio da Rua de Vaugirard, o Hospital Franco-Brasileiro, destinado ao atendimento dos feridos nas batalhas. Em função da epidemia de gripe espanhola, a unidade de saúde atendeu também a população doente.

Os brasileiros começaram a trabalhar no fim da guerra. Mesmo com a assinatura do armistício, em 11 de novembro de 1918, os profissionais mantiveram os atendimentos no hospital.
A missão foi oficialmente extinta em 19 de fevereiro de 1919. As instalações e os materiais do Hospital Franco-Brasileiro foram doados à Faculdade de Medicina de Paris. Nos jardins do Hospital de Vaugirard, uma placa de bronze relembra a atuação dos brasileiros na Primeira Guerra Mundial.






