A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre foi erguida com o trabalho de pessoas escravizadas. Fundada em 1803, a instituição abriu as primeiras enfermarias em 1826. Durante o período da escravidão no Brasil, a casa de saúde e assistência social comprou, vendeu, alugou, recebeu como doação e também alforriou cativos.
O texto Na Senzala da Misericórdia: a escravidão e a Santa Casa de Porto Alegre, do professor Paulo Roberto Staudt Moreira, abre o novo livro da série Histórias Reveladas, uma publicação que reúne trabalhos de pesquisadores que estudaram o acervo do Arquivo do Centro Histórico-Cultural (CHC) Santa Casa de Porto Alegre. Baseado em atas da Mesa Administrativa, o estudo resgata a presença e a trajetória dos escravizados ligados à instituição.
O número exato de cativos é incerto. Registros oficiais indicam, por exemplo, 13 mortes de indivíduos pertencentes à Santa Casa entre 1850 e 1874, sendo 11 homens e duas mulheres. O pesquisador relata que muitos foram doados — vários já doentes — e outros, comprados, inclusive na Corte do Rio de Janeiro. O livro de registro de óbitos de escravizados na instituição foi encerrado após a abolição da escravidão em Porto Alegre, em 1884.
Os escravizados construíram os primeiros prédios do complexo hospitalar. Depois da inauguração, continuaram realizando o trabalho pesado. A organizadora do livro, Véra Lucia Maciel Barroso, coordenadora do arquivo do CHC, explica que homens e mulheres atuavam na cozinha, na limpeza e no cemitério, além de exercerem ofícios como carpinteiros, serralheiros e carroceiros. Nenhum fazia atendimentos de pacientes.
— Quando não tinha rendimento no trabalho, a Santa Casa vendia o escravizado — revela Véra.

Histórias Reveladas
O nono volume da série Histórias Reveladas será lançado no dia 12 de novembro, às 14h30, no Anfiteatro Hugo Gerdau, na Santa Casa. A entrada é franca, sem necessidade de inscrição prévia.
A publicação traz episódios que atravessam os campos da saúde, assistência social, escravidão, infância e protagonismo negro, destacando personagens como o Maestro Mendanha — primeiro Irmão negro da Irmandade — e Orlandina Alves, ativista da Sociedade Floresta Aurora. O livro também aborda os impactos da Lei do Ventre Livre, a presença germânica na Irmandade e o papel da Santa Casa de Porto Alegre durante a Guerra dos Farrapos, entre outros temas.
A conferência de lançamento será com o professor Tiago da Silva Cesar, que abordará a importância dos arquivos e documentos em pesquisas sobre presos e presas sul-rio-grandenses entre 1855 e 1930.
A versão digital do livro ficará disponível no site do CHC Santa Casa.






