Os negros lutaram nos dois lados na Guerra dos Farrapos. Entre 1835 e 1845, escravizados e libertos estiveram em tropas farroupilhas e imperiais. Os cativos partiram para as batalhas sonhando com a própria liberdade.
Os Lanceiros Negros são tema do terceiro episódio da nova temporada do programa Aconteceu no RS. A entrevista com o historiador e professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), Vinicius Oliveira, está disponível no canal de GZH no YouTube. Ele fala sobre o cenário da escravidão na província e da participação dos negros na guerra.
A província de São Pedro do Rio Grande do Sul tinha aproximadamente 150 mil habitantes na época da rebelião dos farroupilhas. Pelas estimativas, os negros representavam 25% da população. É importante lembrar que o número de escravizados cresceu no século 19 com a expansão das charqueadas.

Nas fileiras farroupilhas, estavam os Lanceiros Negros. Embora predominantemente usassem lanças, evidências indicam que alguns também portavam armas de fogo. Eles eram recrutados de diversas formas: podiam ser roubados de proprietários legalistas, cedidos por senhores simpáticos à causa farroupilha ou se engajavam voluntariamente, seduzidos pela promessa de liberdade.

Porongos
O Massacre de Porongos, quando foram executados entre 80 e 100 negros, está entre os episódios mais discutidos após a Guerra dos Farrapos. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, tropas imperiais comandadas pelo coronel Chico Pedro, o Moringue, atacaram os farroupilhas acampados no Cerro dos Porongos, atualmente no município de Pinheiro Machado.
O episódio tem duas versões: traição e surpresa. Na década de 1850, começou a circular uma suposta carta do então barão de Caxias, presidente da província, avisando Moringue sobre a localização do acampamento e com orientações para o ataque, facilitado por oficial farroupilha. O general David Canabarro passou a ser acusado de traição, mas sempre negou.
Os defensores da teoria da surpresa apontam que a carta foi uma farsa, forjada por opositores políticos de Canabarro para macular sua imagem. Ele era um líder que ainda poderia reunir forças contra o Império.
— Tendo sido ou não uma traição, eles estavam desarmados e lutaram em condições desiguais. Tivemos um massacre, particularmente de um grupo, que eram os negros — destaca Oliveira.
No Tratado de Ponche Verde, que pôs fim à guerra, a quarta cláusula estabelecia: "são livres e como tais reconhecidos todos os cativos que serviram na revolução". A realidade foi diferente.
Nos episódios anteriores, sobre Bento Gonçalves e Duque de Caxias, também foram abordadas as temáticas da escravidão e do Cerro dos Porongos. Na próxima semana, o último programa da temporada será sobre Bento Manoel Ribeiro, o vira-casaca, que comandou tropas imperiais e farroupilhas.





