
A Revista do Globo oferecia uma seção de conselhos amorosos. O Correio da Revista publicava cartas de leitores e leitoras, que compartilhavam suas emoções e pediam ajuda ao "anônimo conselheiro". Outras revistas e jornais também tinham páginas para conselhos aos corações aflitos.
O Almanaque Gaúcho publica uma carta enviada à redação da Revista do Globo na Rua dos Andradas. Na edição de 19 de fevereiro de 1944, uma jovem estudante contou que estava apaixonada pelo primo:
Estou em Porto Alegre internada num ginásio. Nos domingos de saída, costumo ir para casa de meus tios, que residem aqui. Mas, nos dois últimos domingos antes das férias, minha vida mudou. Isso porque, em vez de meus tios virem me buscar no colégio, quem veio foi meu primo. Não o via há dois anos. Meu Deus, nem o reconheci, de tão bonito que está! Não sei se será possível acreditar, mas me apaixonei imediatamente por ele.
Entretanto, para ele não sou mais do que uma prima. Talvez tenha sido porque eu estivesse de uniforme, sem pintura, mal penteada, quando nos encontramos. Ou, quem sabe, porque ele não goste mesmo de mim.
Depois, começaram minhas férias. Fui para casa. Não consegui deixar de pensar nele. Um dia, não resisti mais. Escrevi-lhe dizendo que o amava. Não me respondeu. Há momentos em que chego a ter a impressão de que não recebeu minha carta. Não é possível que, depois de ter lido o que lhe escrevi, continuasse indiferente desta maneira.
Agora, estou de volta em Porto Alegre. Vim para fazer exames de segunda época, mas não consigo fixar-me nos estudos. Ontem foi o meu primeiro domingo depois que voltei. Meu primo veio buscar-me no colégio. A primeira coisa que disse foi: “A mamãe pediu que eu viesse te buscar...”. É como se quisesse explicar que, por vontade própria, jamais teria vindo. Minha tia sugeriu-lhe que ele me levasse à matinée, ao que se negou alegando que estava muito cansado. Quando voltei para o colégio, chorei muito. Não consigo parar vendo-me. Breve ele partirá para o Rio, vai voltar para a Escola Militar e só o verei novamente em dezembro. Mas o meu caso precisa ser resolvido agora. Por favor, auxilie-me. – Magda – Capital.
O conselheiro anônimo respondeu, sem dar grande esperança à jovem apaixonada:
Querida Magda: Você está num internato, quase sem sair, sem conversar com pessoas estranhas, convivendo apenas com meninas. Neste momento surge diante dos seus olhos um rapaz simpático com uma bela farda e ainda por cúmulo, seu primo! Ora, acontece a única coisa que se podia esperar. Com uma imaginação de colegial interna, você logo forjou um romance. Seu primo, no entanto, vinha do Rio, passeia muito, como é natural, conhece muitas pequenas. Tudo isto é contra você, não resta dúvida. Possivelmente, você talvez seja mesmo para ele apenas uma prima. Quanto à atitude negando-se a acompanhá-la ao cinema, pode ter tido fundamento na carta que você lhe escreveu. Foi talvez um modo de se defender.
Neste momento, Magda, você deve estar imaginando se sou seu amigo ou amigo de seu primo. Mas o caso é que eu quero lhe dar um conselho muito diferente do que você deseja. Em minha opinião, seu primo é quase inconquistável. Deixe, portanto, que ele volte para o Rio, Magda. É possível que, no fim dos seus cursos, vocês se encontrem de novo. Então o amor será muito mais lógico.
Não sei se o nome verdadeiro da estudante era Magda. Depois de oito décadas, fico pensando o que aconteceu com a jovem. Conquistou o primo? Os dois se casaram e tiveram uma linda família? A paixão passou rápido e surgiu um novo amor? É uma das tantas histórias de amor eternizadas dos jornais e revistas do passado.




