Os porto-alegrenses acompanhavam pelos jornais o desenrolar da Revolução Federalista em 1895. No interior do Estado, lutavam republicanos e federalistas. Porto Alegre, que somava pouco mais de 50 mil habitantes, crescia com a chegada de muitos imigrantes. Naquele cenário de tensão política e desenvolvimento, em 1º de abril, Carlos Foernges abriu uma loja na Rua dos Andradas. A Óptica Foernges completou 130 anos na popular Rua da Praia.
Comerciante em Montenegro, no Vale do Caí, o descendente de imigrantes alemães se mudou para Porto Alegre. Ele negociava joias, relógios, artigos de montaria e outros produtos. Carlos e a esposa Guilhermina tiveram nove filhos. A loja ficava no térreo e a família morava em cima.
Em 1898, Carlos acolheu o filho de um amigo de Montenegro, Anton Jacob Renner, de 14 anos. O adolescente queria aprender o ofício de ourives. Morou com a família Foernges e trabalhou na loja. O empreendedor A. J. Renner fundaria, anos depois, um império industrial.
Laboratório óptico
A maior evolução da loja ocorreu após a viagem do filho mais velho, João Fellipe, para a Alemanha. Enviado pelo pai para estudar óptica em Berlim, ele retornou em 1909 com a formação e os equipamentos para montar o primeiro laboratório óptico do Estado.
Em edição de 4 de janeiro de 1910, o jornal A Federação descreveu o moderno gabinete na Rua da Praia. Citou que o "dr. João Foernges" estava "habilitado a prestar grandes serviços no corpo médico, que já sentia a falta dos recursos ora postos em prática".

Em propagandas, João Foernges anunciava que foi assistente do "dr. H. Brinkhaus, médico oculista em Berlim". Ele oferecia "exame da vista e fabricação de óculos e pince-nez modernos, com cristais finos".
A Foernges também fornecia troféus para as competições esportivas. Na vitrine, os torcedores podiam ver os prêmios. Em 1910, por exemplo, a imprensa noticiou que a taça em disputa entre Fuss-Ball Club Porto Alegre e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense estava em exposição na loja.
Na Rua da Praia, quase na esquina da Rua Marechal Floriano, a matriz da Óptica Foernges permanece no mesmo ponto desde a fundação. A fachada do prédio verde, de três andares, tem no topo o ano de 1895 e as iniciais do nome do fundador. A empresa já vendeu vários tipos de produtos, como joias, relógios, pratas, cristais e porcelanas.
O fundador faleceu em 4 de julho de 1929. Os filhos João Fellipe, Theobaldo e, mais tarde, Bruno Alfredo tocaram o negócio. O nome da loja já mudou algumas vezes. Por um tempo, foi Óptica Moderna, da firma Irmãos Foernges.

A empresa testemunhou as transformações do centro de Porto Alegre, resistiu a duas grandes guerras, aos vários planos econômicos e às mudanças nas formas de consumo. Bruno Carlos Foernges, neto do fundador, e o seu filho Guilherme Foernges estão no comando da loja que comemora 130 anos.
— Carrego um misto de orgulho e responsabilidade à frente de uma empresa de tanta história. O mercado é muito dinâmico. Estamos sempre em busca de novidades, de produtos exclusivos — conta o sócio-diretor Guilherme Foernges, quarta geração da família na loja.
A Foernges, que tem seis lojas em Porto Alegre, já não vende mais joias. Focou na sua especialidade: os óculos. Orgulhosamente, empresa gaúcha se apresenta como a óptica mais antiga em atividade no Brasil.





