
Era o mês de fevereiro de 1952 quando um grupo de estudantes decidiu marchar pacificamente em defesa da própria língua e da identidade do seu povo, em um território conhecido como Paquistão. O movimento nasceu após uma decisão do governo local de impor o urdu como único idioma oficial do país, ignorando por completo os falantes da língua bengali. O poder político estava concentrado no Paquistão Ocidental, dominado por uma elite de língua urdu. Para milhões de bengaleses, a medida ia além de uma escolha administrativa. Era a negação da própria cultura.
A manifestação foi reprimida com violência pela polícia, provocando mortes e gerando imensa repercussão. Começava ali um período de revoltas, que culminaria com a independência da República Popular de Bangladesh.
O país nasceu, de fato, em 1971, quando foi oficializada a separação do Paquistão. E foi nesse contexto de afirmação nacional e de um povo aprendendo a contar a própria história que a população passou a reverenciar um rei nascido no Brasil.
Edson Arantes do Nascimento. Copa de 1970. Um homem negro, de origem pobre, vivia seu auge e encantava o mundo com a bola nos pés. Bangladesh ainda vivia sob os efeitos terríveis da guerra. Mas Pelé, vestindo a camisa da Seleção Brasileira, era capaz de oferecer algo precioso: dribles mágicos, jogadas inacreditáveis e instantes raros em que era possível sonhar.
Pelé representava excelência, autoestima e, por que não, a possibilidade de um povo pequeno, distante dos grandes centros de poder, sentir-se conectado ao resto do mundo. Foi como resumiu o embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Fernando Dias Férez, nesta semana em entrevista à Rádio Gaúcha: “Pelé pairava soberano sobre todas as desavenças do mundo”.
É fantástico. E, como tal, é lembrado até hoje.
Os números do Rei são fora da curva, sabemos. Pelé é o único jogador do planeta a vencer três Copas do Mundo. É o recordista de hat-tricks do futebol mundial: 92 ao longo da carreira. Uma barbaridade. Mas há também uma dimensão histórica. Uma estrela com trajetória inspiradora, que demonstra que é possível sair de um lugar improvável e conquistar respeito do mundo todo.
Talvez seja por isso que sua história tenha encontrado tanto sentido em Bangladesh, que mais uma vez se mostra apaixonada pelo Brasil nesta Copa. Obrigada, Pelé. Merece ser chamado de rei aquele que inspira um povo inteiro a acreditar em si mesmo.




