
Eu sei. Brasileiro não pode torcer para a Argentina.
Mas você viu a jogada do Messi no primeiro gol contra a Inglaterra? A bola nos pés do craque, depois de recebê-la de volta em mais um daqueles irritantes escanteios curtos. Em poucos segundos, ele atrai três marcadores atônitos com a possibilidade de sua canhota genial aparecer. Já havia dois com ele: Spencer, imediatamente, e Kane, na cobertura. Anderson, mais atrás, era o marcador de Enzo Fernández. Ao menor sinal de que Messi cortaria para a esquerda, Anderson corre na direção do gênio para impedir que a jogada acontecesse por aquele lado. É ali que Enzo Fernández fica livre. O passe sai no tempo exato. O chute é um petardo. O gol leva o nome de quem finalizou, mas nasce na inteligência de quem enxergou o jogo antes dos demais.
Eu sei.
Brasileiro não pode torcer para a Argentina.
Mas você viu que, aos 39 anos, Messi voltou a dar show uma semifinal de Copa? Que em todas as partidas deste Mundial, nos Estados Unidos, ou fez gol ou deu assistência para que um companheiro marcasse? Que chegou a marcar três gols em uma única partida, contra a Argélia, e a dois dias da final divide a artilharia da competição com o francês Kylian Mbappé?
Eu sei. Vamos com calma. Brasileiro que é brasileiro não pode torcer para a Argentina.
Mas você viu o que aconteceu nas oitavas de final contra o Egito? A seleção de Lionel Scaloni perdia por 2 a 0 até os 34 minutos do segundo tempo. O jogo parecia acabado, mas a virada veio de forma inacreditável, com o apoio de uma torcida que consegue cantar ainda mais alto quando leva um gol. Uma virada épica que terminou com a vitória da Argentina por 3 a 2.
Eu sei.
Brasileiro não pode torcer para a Argentina.
Mas você já se sentou para ler as tirinhas da pequena Mafalda, a menina de vestido e laço capaz de enfrentar ditaduras e as pequenas hipocrisias da vida adulta apenas fazendo perguntas? Criação do genial cartunista Quino, que fez da ingenuidade da infância uma forma sofisticada de denunciar as desigualdades históricas com as quais convivemos.
Tá bem. Eu sei.
Brasileiro não pode torcer para a Argentina.
Mas apresso-me em avisar: não ouse passear pelo El Ateneo, uma antiga casa de ópera transformada em livraria extraordinária, em Buenos Aires. Também não ouça Mercedes Sosa. Nem Fito Páez. Não leia Borges. E nem pense em entrar em um café qualquer para pedir uma medialuna quentinha. É um caminho sem volta.

