
Meu amigo e colega de bancada Gabriel Wainer costuma dizer, ao se referir aos escândalos políticos recentes, que o Brasil de hoje é sempre melhor que o de amanhã. Em suma, trata-se de uma constatação de que os conluios do primeiro escalão de Brasília se superam a cada novo amanhecer. Portanto, ainda que estejamos boquiabertos com desvios revelados pela manhã, é prudente se preparar: amanhã pode ser pior.
Foi o que vimos nos últimos dias com mais uma operação sobre o Master. Revelou a Polícia Federal que Daniel Vorcaro pagou ao senador Ciro Nogueira (PP) uma mesada de R$ 500 mil em troca de projetos que o beneficiassem. Meio milhão de reais. De fazer inveja aos trambiqueiros do mensalão, que em 2005 contaram ter recebido R$ 30 mil por mês para votar com o governo.
O mensalão de Ciro não vinha só. Além da bolada, Vorcaro o presenteava com outros mimos, incluídas despesas em hotéis de luxo em Nova York. O dinheiro que sustentava as mordomias era drenado a partir do Master, instituição financeira que lesou investidores, entre eles milhares de aposentados. Isso sem mencionar o rombo estratosférico no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que precisou cobrir prejuízos de clientes causados por Vorcaro e companhia.
Os parlamentares se movimentam à luz do dia e com apoio de ministros do STF, para enfraquecer André Mendonça, relator do caso na corte
Poderia ter sido pior? Sim. Uma emenda apresentada por Ciro Nogueira pretendia aumentar o valor de cobertura do FGC para R$ 1 milhão por depositante. O mecanismo funciona como uma espécie de “seguro” para investidores quando um banco quebra ou é liquidado. Na prática, se tivesse sido aprovada, o fundo teria sido obrigado a ressarcir um montante muito maior do que os atuais R$ 51 bilhões. Em tempo: o texto da emenda foi redigido pela assessoria do Master.
É por isso que políticos azuis, vermelhos, verdes e amarelos fazem todo tipo de força para enterrar qualquer chance de CPI. Os parlamentares se movimentam à luz do dia e com apoio de ministros do STF, para enfraquecer André Mendonça, relator do caso na corte. Toffoli tentou lacrar o conteúdo das investigações, Moraes até hoje não deu explicações decentes sobre o contrato da mulher (nem sobre mensagens trocadas com o banqueiro) e agora Ciro Nogueira diz que é vítima e que nada será provado. Assim mesmo. Crente de que somos muito idiotas.
No Brasil, o criminoso do andar de cima aposta que vai escapar ileso pela convicção de que relações de poder valem muito mais do que a lei. Daí florescerem tantas amizades sinceras, sustentadas em modestos R$ 500 mil mensais ou inacreditáveis R$ 129 milhões.



