Bater o mindinho na quina de um móvel dói. Terminar um relacionamento com quem se ama dói. Tomar uma benzetacil, ô meu pai, como dói. Mas você já ouviu as palavras quimioterapia e radioterapia na mesma frase, acompanhadas de “vamos precisar de”? Eu conto: o chão se abre. E dói.
É preciso explicar que não sou eu a paciente, mas, como alguns leitores têm acompanhado por aqui, falo sobre o tratamento contra o câncer do meu pai. Começou com um tumor na laringe em 2024 e foram quase dois meses (muito difíceis) de radioterapia. Havíamos comemorado juntos quando soubemos, por exames, que a lesão havia sido extinta. Estávamos curados. Pouco tempo depois, contudo, uma notícia nos atravessaria por inteiro: a doença havia voltado, agora em um linfonodo. Passamos por cirurgia, recuperação dura, e agora avançaremos para a etapa seguinte, aos cuidados de nosso oncologista-anjo André Fay.
No fim, o que nos resta senão acreditar?
Falo assim, no plural (nós), porque tenho a convicção de que é uma doença que não se atravessa sozinho, mas antes com a convocação de um time, como se cada amigo ou familiar exercesse um papel tático fundamental. Há os amigos que rezam, os que mandam mensagens, os que se oferecem para cozinhar e também os que visitam com quitutes para que o paciente se sinta melhor.
E veja: estudos científicos confirmam essa percepção. Há evidências de que o apoio emocional melhora a experiência do paciente. Há impacto na qualidade de vida, na adesão ao tratamento, na melhor capacidade de lidar com efeitos colaterais. Um estudo publicado no Journal of Clinical Oncology, em 2006, com mulheres com câncer de mama, mostrou que pacientes com maior rede de apoio tinham menor risco de morte ao longo do acompanhamento. A ausência de vínculos próximos foi associada a piores desfechos.
É importante dizer que não há subtração do tratamento médico, por favor. Mas sublinhar como trazem força as relações humanas. Não são detalhe, são parte do cuidado. E é por isso que eu e meu irmão fazemos um corre danado para irmos ao médico juntos, ainda que meu pai diga que “não precisa, vocês estão cheios de coisa para fazer”.
No fim, o que nos resta senão acreditar? Acreditar que é possível, que há chances de cura e que somos aqueles que segurarão a rede em caso de o trapezista se desestabilizar. É a esperança equilibrista, como cantou Elis. Porque a vida, tal como o show de todo artista, tem que continuar.



