Há mais de uma hipótese quanto à etimologia da palavra escárnio. Uma delas sustenta que o verbete tem origem no germânico, de onde derivaram os idiomas alemão, inglês e holandês. Nossa língua portuguesa tem outra matriz, o latim. Contudo, há palavras que nos foram emprestadas de outras línguas e é possível que esse seja o caso de escárnio, já que o francês antigo e o espanhol tinham formas semelhantes: escharnir e escarnir. Em suma, dizem sobre o ato de humilhar, desprezar ou fazer pouco de alguém.
Sigo procurando uma palavra à altura do absurdo
É em escárnio que penso quando me debruço sobre a teia de personagens políticos envolvidos nos trambiques do Banco Master. A instituição, que maquiou operações e provocou um rombo de quase R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, ficou a centímetros de ser adquirida pelo Banco Regional de Brasília, um dos cinco bancos públicos do país. O acordo era bancado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha, e por líderes do centrão. Isso sem falar na penca de aliados de Daniel Vorcaro nos postos de comando do Congresso e até mesmo no Supremo Tribunal Federal.
Em tempo: as últimas reportagens revelaram que, a despeito dos graves problemas de liquidez, o então presidente do BRB defendeu a compra como estratégica para o crescimento do banco. Es-tra-té-gi-ca. E documentou a recomendação em relatório entregue ao Banco Central em fevereiro de 2025. Era tanta certeza sobre o negócio fechado que Vorcaro contava aos quatro cantos sobre o plano de integrar o conselho de administração do BRB.
Escárnio.
A palavra, contudo, parece pouco para definir o ato de aposentadoria concedida ao tenente-coronel acusado de matar a esposa (também policial militar), em São Paulo. Trata-se de Geraldo Neto, aquele que se descrevia como “macho alfa” e exigia da mulher o papel de “fêmea beta”, “obediente e submissa”. Pois esse homem, que, segundo o Ministério Público, matou a esposa com um tiro na cabeça, aposentou-se com salário integral.
Humilhou. Matou. E levou aposentadoria integral. A remuneração corresponde ao último salário antes da prisão, cerca de R$ 28,9 mil brutos, segundo o Portal da Transparência do Governo de São Paulo. E sabe quem vai pagar? Acertou em cheio.
Por isso, sigo procurando uma palavra à altura do absurdo, porque escárnio parece pouco. É deboche com a sociedade que pagará o salário de um assassino. É rir da cara do trabalhador honesto que trabalha duro para chegar à aposentadoria. É humilhante para mulheres que lutam apenas pelo direito de existir.





