É de Winston Churchill, ex-primeiro-ministro britânico, a icônica e até hoje lembrada frase sobre a democracia: “é a pior forma de governo, exceto por todas as outras”. Trata-se de um recado simples, mas profundo: ainda que seja desafiador conviver com o diferente, é preciso assegurar ao outro o direito de se expressar livremente e, também, de prever formas de participação de diferentes grupos da sociedade nas decisões do país, independentemente de status ou posição política. Não à toa, o conceito foi citado pelo diretor-executivo da International Churchill Society, Adam Howard, no Fórum da Liberdade, na PUC.
Em uma leitura direta, a frase nos lembra que a democracia é imperfeita, ruidosa e atravessada por atritos. Entretanto, é por meio dela que se garante o direito de todos e todas de fazer parte.
Não se trata de elogio entusiasmado. Ao contrário. Churchill reconhece as tensões do regime, mas sublinha a relevância de negar o autoritarismo e defender a convivência com o que nos desagrada. A democracia não silencia o adversário. Cria condições para que vozes distintas coexistam sob a proteção da lei. No contexto brasileiro, aliás, é impossível ignorar que decisões recentes do Poder Judiciário caminharam em sentido oposto, ao silenciar vozes sob o argumento de proteção ao Estado de Direito.
Quando alguém decide que certos indivíduos não são bem-vindos por aquilo que representam, está tentando corrigir o 'defeito' da democracia: o fato de que o outro tem direito de existir
Por ora, contudo, não entraremos no debate sobre o Judiciário brasileiro, que renderiam artigo próprio. Aqui, o ponto será outro: a placa segregacionista fixada na porta de um bar no Rio de Janeiro, informando que cidadãos americanos e israelenses não são bem-vindos. Ora, se a democracia existe para salvaguardar a convivência de todos, causa espécie que venha de um espaço autodeclarado progressista que sustenta seu discurso na diversidade. Parece contraditório. E é.
Quando alguém decide que certos indivíduos não são bem-vindos por aquilo que representam, está tentando corrigir o “defeito” da democracia: o fato de que o outro tem direito de existir. A placa tenta se escorar em uma crítica a Estados, mas na prática opera como filtro de pessoas. É segregação pura e simples. E a história deveria lembrar a todos onde isso já foi parar.
Há ainda um elemento adicional. O aumento de seguidores do estabelecimento nas redes sociais revela como a lógica digital premia o gesto extremo e intolerante. E isso é preocupante.
Democracias não se medem pelo conforto entre iguais, mas pela disposição de garantir direitos a quem não se parece conosco. O resto é retórica sem compromisso real.




