É de corar até mesmo as pererecas pontilhadas do Pantanal o teor da nova leva de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal. Vorcaro, caso você tenha passado os últimos dias em um resort de luxo (ô sorte!), alheio às notícias, era o dono do Banco Master, instituição que cresceu de maneira impressionante em poucos anos às custas de operações fraudulentas e de um rombo no Fundo Garantidor que deve passar de R$ 52 bilhões. Uma das maiores fraudes bancárias da história do Brasil.
Causa espécie que o PGR não tenha percebido urgência
O que se soube de novo, no quesito sacanagem, pode ser dividido em partes. Primeiro: a engrenagem miliciana exposta nos diálogos do grupo de WhatsApp “A Turma”, comandado por Vorcaro. Um dos integrantes era conhecido como “Sicário”, para não deixar dúvidas sobre seu papel na organização criminosa. Em uma das ordens, o chefe dirige-se ao capanga ao falar sobre uma funcionária: “Tem que moer essa vagabunda”. Em outra, fala em “quebrar todos os dentes” de um jornalista. Causa espécie que o PGR não tenha percebido urgência para deliberar sobre o caso.
É pouco? Segunda parte. A jornalista Malu Gaspar revelou que foi para o ministro do STF Alexandre de Moraes que Vorcaro enviou uma das últimas mensagens no dia em que foi preso pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Moraes respondeu em seguida, mas o conteúdo não pôde ser acessado por conta do envio com visualização única.
Para bom entendedor, meia palavra apagada basta.
É grave, para dizer o mínimo. Um banqueiro que mandava “moer” e quebrar os dentes de desafetos questiona um magistrado da mais alta Corte do país sobre “bloquear”. E recebe resposta imediata. Pode isso, Arnaldo?
Moraes, assim como Dias Toffoli, deve seríssimas explicações à sociedade. A nota divulgada na última sexta-feira, em que recorre a um contorcionismo digital para negar que a mensagem fosse dirigida a ele, está longe de esclarecer a natureza de sua relação com Vorcaro. Que tipo de amizade mantinham? Moraes conseguiria bloquear o quê? E não menos importante: o escritório da esposa do ministro havia firmado contrato de inacreditáveis R$ 129 milhões com o Master.
É estarrecedor. Antes mesmo de um código de conduta formal, rejeitado por Moraes e Toffoli, impõe-se algo ainda mais elementar aos ministros: decência e respeito ao cidadão brasileiro.





