É da minha avó Eva da Silva Matos que lembro quando penso naqueles conjuntinhos de tapetes artesanais que enfeitam banheiros de tantas famílias brasileiras. Do kit fazem parte, ao menos, três peças: um tapete maior, para logo abaixo da pia; outro, em formato de “U”, ao redor do vaso; e ainda uma capa que envolve a tampa da privada. Recordo bem de um deles, com flores pintadas à mão, que eu via na infância, na casa da vó. Talvez causasse arrepios em experts da decoração, mas eu traduzia como amor e esforço de mãe para fazer da casa um lugar bonito para se viver.
Era fazendo esses tapetes que dona Sebastiana Maria de Medeiros ganhava a vida, em um pequeno povoado da região do Seridó, no Rio Grande do Norte. Produzia peças junto da filha Shirley, com duas máquinas de costura industriais. Foi dona Tânia, aliás, quem criou a filha sozinha, sem ajuda do pai. O que nem ela, nem a menina poderiam imaginar é que a vida reservava uma virada improvável pelas lentes de Kléber Mendonça Filho.
Foi aos 72 anos que dona Tânia estreou nas telonas, como figurante no aclamado Bacurau. O cachê era de R$ 50 por dia de gravação. Kleber encantou-se pela atriz, até então artesã de tapetes. Pediu que dissesse uma frase a seu gosto, enquanto a câmera captava a chegada do personagem de Silvero Pereira. De improviso, saiu: “Que roupa é essa, menino?”. Pronto. Não parou mais.
Em 2025, Dona Tânia encantou o público e críticos do cinema mundial ao interpretar Dona Sebastiana, em O Agente Secreto. Da Associação de Críticos de Santiago de Compostela, recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Foi chamada de “estrela” e “ícone do Brasil” pelo The New York Times. Teve o nome citado e aplaudido no palco do Museu da Academia do Oscar, em Los Angeles.
A história de dona Tânia tem algo de profundamente brasileiro: nasce do esforço de uma trabalhadora, da persistência cotidiana em criar uma filha sozinha e da incrível disposição de aceitar um desafio novo aos 72 anos. Talvez esteja aí uma lição valorosa. A vida raramente se organiza em linhas retas e (para nosso desespero) quase nunca respeita o planejamento que traçamos.
É por isso que hoje, em vez de falar exclusivamente de O Agente Secreto (filmaço, que merece todos os aplausos), decidi celebrar também dona Tânia. Uma artesã do interior do Rio Grande do Norte, que se descobriu atriz depois dos 70 e conquistou o mundo pelo seu talento, entrega e carisma. É mais que Oscar. É dona Tânia. É nossa. É do Brasil!




