Enquanto o Brasil amargava números e comportamentos vergonhosos de desprezo pelas mulheres, uma dezena de figurões se refestelava em um condomínio de luxo na praia de Trancoso, na Bahia. Para além da paisagem paradisíaca, havia um atrativo adicional: a oferta, patrocinada por um ilustre e desavergonhado banqueiro, de duas mulheres para cada homem.
O espanto da proprietária, que firmara contrato para a locação, foi imediato:
– Temos um problema, Celso. Estou furiosa com seu cliente.
Celso, segundo troca de mensagens que consta em relatório da Polícia Federal, era o homem que havia alugado uma casa para um dos regabofes de Daniel Vorcaro. Em tom de indignação, a dona do imóvel reclamou sobre: presença de prostitutas, som acima do permitido e um comportamento tão desrespeitoso que chocou funcionários da hospedagem.
Como se não bastasse, restou a informação de que as prostitutas seriam recrutadas no Exterior, a fim de evitar que compreendessem as sacanagens praticadas ali. É que entre os participantes estavam políticos e empresários poderosos. Uma engrenagem que extrapolava a libertinagem e resvalava em uma rede de tráfico de influência, favorecimentos e otras cositas más.
Há duas hipóteses, que podem ser combinadas. A primeira, de que o dono do Master bajulava autoridades de toda sorte para assegurar vista grossa e complacência com negócios irregulares. Coube aqui contrato milionário de consultoria, doação polpuda para campanhas políticas e patrocínio de evento lotado de autoridades.
O outro prisma é também sórdido e semelhante ao que se suspeita ter ocorrido no caso Epstein. Um mecanismo de coação indireta baseado na promoção de festinhas privadas com práticas ilícitas ou moralmente comprometedoras. O objetivo aqui não seria recreativo, mas obter registros comprometedores dos presentes. Na prática, facilitaria coerção e chantagem.
O fato é que, a cada semana, o escândalo do Master revela o que há de mais podre no andar de cima da República: quanto mais amigos na Corte, mais blindado de responsabilização. Promovem-se barbaridades financeiras sob os olhos dos órgãos reguladores, mas a circulação é livre pelos camarotes. Pede-se para não ir à CPI, mas, se for inevitável, ao menos que seja de jatinho. Dá-se tempo ao tempo, à espera de uma brecha que permita a nulidade do processo. Puro suco de Brasil.
É, Celso, temos um problema. E o som alto parece ser o menor deles.





