
Meu filho está numa fase deliciosa, prestes a completar três anos, vivendo descobertas diárias de todo tipo. Recentemente, aprendeu a identificar quando alguém faz algo certo. Diz: “fulano está bonito”. Funciona assim: se foi para o banho sem chorar, se escovou os dentes, se dividiu o brinquedo, o espertinho dispara:
— Mamãe, o Gabi tá bonito.
Para além da corujice materna, reflito sobre a simplicidade com que uma criança começa a distinguir o certo do errado, à medida que cresce. E comparo com o mundo adulto.
É possível que um ministro da Suprema Corte não compreenda que é errado manter relações próximas com um investigado em um caso sob sua responsabilidade? Vejamos o caso Master. Tal magistrado puxa a investigação para o STF. Impõe sigilo. Determina acareação com o Banco Central. Recua. Determina que provas sejam “encaixotadas” na Corte. Recua de novo. Tudo diante daquela que pode ser a “maior fraude bancária da história do país”, conforme o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Retirar o caso do foro onde estava e decretar sigilo máximo favorece quem? Os investigados. E não, ministro Dias Toffoli, isso não está bonito.
Poderia falar ainda sobre o comércio escandaloso de emendas, com flagrante desvio de dinheiro público, ou sobre as fraudes no INSS. Se uma criança de três anos aprende que escovar os dentes é o certo, é inaceitável que um adulto funcional não perceba quando uma conduta é incompatível com o cargo que ocupa.
Cabe relembrar que recentemente uma parcela expressiva de deputados votou a favor da PEC da Blindagem, que dificultava investigações contra parlamentares. Dezessete gaúchos se prestaram a esse papel. É medo de quê?
Para encerrar e não nausear você ainda mais, estimado leitor, voltarei às estripulias da infância. Outro dia, Gabriel me confessou que ele não “estava bonito”. Perguntei por quê. A resposta veio rápida: “Mamãe, o Gabi soltou um pum”.
Num esforço de cumprimento da cartilha da educação positiva, tratei de explicar que soltar pum não era necessariamente feio e faz parte do funcionamento do sistema digestivo. Ainda assim, fui conferir a fralda. Não havia nada. Ele explicou que não era “pum de fralda”, mas sim o “pum da língua”.
— Pum da língua?
— PLRRRR — e fez o som, dando risada.
Ah, as crianças! Inventam o pum da língua. Fazem a gente rir. E ajudam a esquecer, ainda que por instantes, o cheiro podre dos escândalos políticos deste Brasil.




