Era dezembro do ano passado e faltavam poucos dias para o fim de 2024. Em meio aos festejos natalinos, meu amigo Luciano Potter fez chegar a mim uma sacola de papel pardo com uma fita de presente. Dentro, um livro. Era o meu regalo de Natal.
A capa trazia a ilustração de uma rua simpática, com uma bicicleta escorada em frente a uma livraria pequena. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong, da escritora sul-coreana Hwang Bo-reum. Imersa na leitura, pude perceber um ritmo de escrita diferente. Aquele não era um texto de reviravoltas. Era, antes, aconchegante, pincelado por minutos de tranquilidade. Um contraste com a rotina insana. Uma espécie de sossego para os pensamentos, com descanso para a mente e o espírito.
Aliás, recomendo a leitura: você vai querer experimentar o café daquela livraria e adoçá-lo com minutos de paz.
É das coisas mais bonitas que li, fruto da observação genuína de um jornalista
Pois foi dessa sensação singular de calmaria que lembrei ao ler o delicioso texto de Jeferson Bottega, em ZH, sobre a história de um casal de pássaros, João e Joana de Barro. Vou pedir licença ao autor para chamá-los assim: um apelido dado por ele às aves durante o Timeline, na Rádio Gaúcha.
Descreveu Jeff sobre a construção conjunta do ninho: “Um dos joões chegou primeiro, com barro no bico. Aplicava a mistura com movimentos precisos – circulares, laterais, quase esculturais. Logo veio o outro. Revezaram-se com ritmo e cumplicidade”.
E prosseguiu: “Com o passar dos dias, ficou claro: o que parecia um simples acúmulo de barro era, na verdade, uma obra. Em cada gesto dos joões-de-barro havia cálculo e adaptação. Cada pausa era parte do processo. Até os dias em que não trabalharam revelavam significado – fossem dedicados à higiene, à observação ou apenas à espera da chuva que amolecesse novamente o solo”.
É das coisas mais bonitas que li, fruto da observação genuína de um jornalista, disposto a pausar seu próprio tempo para compreender o tempo do outro. Houve dias em que a observação durou duas horas. Paciência. É que no tempo de João não havia pressa. “Havia propósito”.
Seria possível ao ser humano? O quão desafiador é, hoje, desacelerar? Somos a geração da ansiedade, do macarrão em três minutos, do emagreça milagrosamente em duas semanas. Tem como? Não sei.
Talvez permitir-se parar alguns minutos, respirar fundo, acompanhar um casal de joões-de-barro. Que tal? Uma lição da natureza contida no trabalho exímio de um repórter: há sentido quando pausamos, observamos e estamos dispostos a aprender.



