
Ontem e hoje (13 e 14 de agosto), uma cena especial ajudou a mostrar o Rio Grande do Sul que podemos construir: 1.100 pessoas de favelas e periferias tiveram a oportunidade de ir à ópera. Crianças, jovens, adultos e idosos. Para todos os presentes, será a primeira vez entrando em um espaço como esse e assistindo a um espetáculo dessa dimensão.
Pode parecer apenas um passeio cultural. Não é.
Quando alguém entra pela primeira vez em um teatro, ocupa uma poltrona e percebe que aquele espaço também pode ser seu, estamos falando de acesso, pertencimento e cidadania. Cultura não pode ser privilégio de quem nasceu perto dos grandes equipamentos culturais ou teve condições financeiras para frequentá-los.
O espetáculo Pagliacci, da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul, com participação do Grupo Tholl, torna essa experiência ainda mais significativa. A montagem aproxima ópera e circo e coloca em cena uma questão que, infelizmente, continua presente no cotidiano de muitas comunidades: a violência contra a mulher.
É justamente aí que a cultura demonstra uma de suas maiores forças. Uma obra criada há mais de um século pode dialogar com problemas urgentes do presente.
A arte emociona, mas também incomoda, provoca perguntas e pode abrir conversas que muitas vezes são difíceis de iniciar.
Imagine uma criança conhecendo a ópera pela primeira vez.
Um jovem descobrindo novas possibilidades profissionais dentro da música, do teatro, da iluminação, da produção cultural ou das artes circenses.
Uma mulher assistindo a uma obra que provoca reflexão sobre relações abusivas.
Um idoso que, depois de uma vida inteira, finalmente tem a oportunidade de ocupar um espaço cultural que talvez sempre tenha parecido distante.
É disso que estamos falando quando defendemos a democratização da cultura.
A iniciativa reúne o Instituto Banrisul Cultural e a CUFA por meio da campanha Basta! O Rio Grande do Sul diz não à violência contra a mulher e ao feminicídio, aproximando um grande equipamento cultural de públicos que historicamente tiveram menos acesso a esses espaços.
O presidente do Banrisul, Fernando Lemos, também acompanhou de perto a ação, demonstrando a importância de instituições e lideranças estarem presentes não apenas no financiamento, mas também na construção dessas pontes.
Precisamos multiplicar experiências assim.
Levar moradores das favelas e periferias aos grandes espaços culturais é importante. Mas o movimento também precisa acontecer no sentido contrário: a cultura precisa entrar cada vez mais nas comunidades, reconhecer seus artistas, suas linguagens e suas próprias produções culturais.
A favela e a periferia não podem ser vistas somente como público. Elas também produzem música, dança, teatro, literatura, audiovisual, moda e inúmeras outras expressões capazes de movimentar a economia criativa do Rio Grande do Sul.
Por isso, unir arte, cultura, reflexão e transformação social não é algo secundário. É política de desenvolvimento humano.
Talvez algumas das 1.100 pessoas que passaram por essa experiência ontem e hoje nunca mais assistam a uma ópera. Outras talvez voltem muitas vezes. E pode ser que, entre essas crianças e jovens, esteja alguém que descubra ali uma profissão, uma paixão ou simplesmente uma nova maneira de enxergar o mundo.
O mais importante é que, depois dessa experiência, ninguém poderá dizer que aquele espaço não pertence a eles.
A ópera também é território da favela.




