
Há uma rua invisível dividindo o Brasil. De um lado, chamam de asfalto. Do outro, chamam de favela. Mas essa rua nunca existiu de verdade. Quem mora no asfalto depende da mão de obra que sai da periferia todos os dias. Quem mora na favela depende das oportunidades, das empresas, das universidades e dos serviços que, em grande parte, estão do outro lado da cidade.
Somos muito mais conectados do que imaginamos, embora insistamos em viver separados pelos nossos preconceitos. A favela não é um país diferente. É Brasil.
Quando uma criança nasce na periferia, ela não nasce sonhando com o crime. Ela sonha em ser médica, professora, engenheira, policial, empreendedora, artista ou jogadora de futebol. O sonho é o mesmo de qualquer criança. O que muda, muitas vezes, é a distância entre o sonho e a oportunidade.
Infelizmente, ainda insistimos em resumir a favela à violência. Quando acontece um crime, lembramos da favela. Quando surge um cientista, um artista, um empreendedor ou uma empresa na favela, quase ninguém notícia. Essa visão é injusta. O crime não representa a favela. Assim como um político corrupto não representa toda a política, um empresário desonesto não representa todo o setor produtivo e um policial que erra não representa toda a polícia. Generalizar sempre foi a forma mais rápida de deixar de enxergar pessoas.
A polícia e a favela não nasceram para ser inimigas. As duas convivem diariamente com a mesma dor. O policial sai de casa sem saber se voltará para sua família. A mãe da periferia também não sabe se o filho chegará vivo da escola, do trabalho, da quadra esportiva ou da esquina de casa. Os dois têm medo. Os dois choram. Os dois enterram seus filhos. Enquanto um enxerga apenas a farda e o outro apenas o rosto coberto, esquecemos que ambos carregam histórias, famílias e humanidade.
A verdadeira segurança pública começa quando entendemos que a prevenção vale mais do que a remediação. Uma quadra esportiva ocupada vale mais do que uma rua abandonada. Uma escola aberta no fim de semana vale mais do que um muro mais alto. Um emprego vale mais do que um discurso.
Também precisamos falar sobre dinheiro. Existe uma falsa ideia de que pobreza é falta de capacidade. Não é. Na favela existem pessoas extremamente competentes que nunca receberam uma oportunidade. Existem empreendedores que fazem milagres com quase nenhum recurso. Existem mulheres que sustentam famílias inteiras vendendo comida, trabalhando como cabeleireiras, costurando, limpando casas ou transformando pequenos negócios em grandes exemplos de superação. O dinheiro abre portas. Mas a dignidade não pode depender da renda. A pobreza nunca foi falta de talento. Quase sempre foi falta de acesso.
O Brasil precisa parar de construir muros invisíveis e começar a construir pontes. Pontes entre a periferia e o centro. Entre o investidor e o empreendedor da favela. Entre a universidade e a comunidade. Entre a polícia e a população. Entre quem tem muito e quem ainda luta para conquistar o básico. Porque, no fundo, o destino de todos nós é o mesmo.
Quando uma favela cresce, a cidade inteira cresce. Quando uma periferia prospera, toda a economia se fortalece. Quando uma comunidade sofre, nenhuma parte da cidade permanece realmente segura. Não existe futuro para um país dividido entre "nós" e "eles". Só existe futuro quando entendermos que existe apenas um lado: o lado da humanidade.
Por isso, precisamos de mais Chiquinhos Divilas e Adílios, lideranças que mostram como a música e a tecnologia podem transformar comunidades. Precisamos de mais iniciativas inovadoras de desenvolvimento industrial, como o primeiro Fundopem da Restinga, demonstrando que o desenvolvimento econômico também pode, e deve, chegar às periferias. Precisamos de mais mulheres valentes, como a Gabi, que atravessou fronteiras, está hoje em Paris e mostrou ao mundo que um negócio nascido na favela pode competir em qualquer mercado. Precisamos de mais Robertas, levando inteligência artificial, inovação e conhecimento para quem nunca imaginou que essas ferramentas também lhes pertencem.
Precisamos, acima de tudo, oferecer oportunidades. Porque, quando a oportunidade encontra o talento, a favela deixa de ser vista pelo que lhe falta e passa a ser reconhecida pelo que sempre teve: potência. O Brasil ainda não precisa descobrir a potência das favelas. Precisa mesmo é decidir investir nela.





