
No mundo corporativo, existe uma palavra bastante utilizada: stakeholder. De forma simples, stakeholders são todas as pessoas, grupos ou instituições que influenciam ou são impactados por uma empresa, projeto ou iniciativa. São partes interessadas que ajudam a construir resultados, identificar problemas e apontar caminhos e soluções.
Nas comunidades, favelas e periferias, talvez não usemos essa palavra no dia a dia. Mas convivemos com eles o tempo todo. São os stakeholders das comunidades.
Gente comum. Pessoas que acordam cedo para trabalhar, enfrentam ônibus lotado, cumprem jornada de trabalho, pagam contas e lidam com as mesmas dificuldades de qualquer brasileiro. Mas que, ao final do expediente ou durante os horários livres, escolhem dedicar parte do seu tempo para transformar a realidade ao seu redor.
É o segurança que, depois do trabalho, abre uma escolinha de futebol para manter as crianças longe da violência.
É a gari que criou um projeto social para oferecer atividades e acolhimento para crianças que passariam a tarde nas ruas.
É a dona de uma pequena loja de surfe que decidiu abrir uma ONG dentro da própria casa para ensinar uma profissão a jovens da comunidade.
É a líder comunitária que conhece pelo nome cada família da sua rua. É o professor voluntário que organiza reforço escolar.
É a mãe que mobiliza vizinhos para arrecadar alimentos quando uma família passa necessidade.
São pessoas que, muitas vezes sem recursos, sem salários e sem reconhecimento, assumem responsabilidades que deveriam ser compartilhadas por toda a sociedade.
Enquanto muitos enxergam apenas carências quando olham para uma favela, esses personagens enxergam possibilidades.
São eles que articulam campanhas de arrecadação, organizam eventos esportivos, promovem ações culturais, encaminham moradores para oportunidades de emprego e ajudam a construir pontes entre a comunidade e o poder público.
Nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, foram justamente esses stakeholders das quebradas que abriram portas, organizaram cozinhas solidárias, identificaram famílias em situação de vulnerabilidade e ajudaram a coordenar a distribuição de ajuda humanitária.
Eles não ocupam cargos de diretoria. Não aparecem em relatórios de governança. Muitas vezes nem recebem títulos formais. Mas exercem uma das funções mais importantes para o desenvolvimento social: gerar confiança.
E confiança é o principal ativo de qualquer comunidade.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o significado da palavra stakeholder. Porque nas comunidades, nas favelas e periferias brasileiras, existem milhares deles atuando diariamente.
Não em salas de reunião ou grandes escritórios, mas nas vielas, nos campos de futebol, nas associações de bairro, nas igrejas, nos centros comunitários, nos quilombos, nas aldeias indígenas e nas próprias casas.
São lideranças que transformam solidariedade em ação, problemas em soluções e dificuldades em oportunidades.
São os stakeholders das comunidades.
E boa parte das mudanças que queremos ver no Brasil já começa com eles.
Quero apresentar a vocês hoje algumas dessas pessoas que vêm fazendo a diferença por onde passam. Mas também quero fazer com que você, leitor, descubra onde estão os stakeholders do seu território, da sua favela, da sua periferia e da sua comunidade!
Stakeholders das comunidades que conheci e admiro
Rozeli do Renascer
Ex-gari, é fundadora da ONG Renascer da Esperança, na Restinga, em Porto Alegre. A organização atende cerca de 400 crianças semanalmente e seu trabalho já foi reconhecido nacionalmente com participação no prêmio Melhores do Ano.
Instagram: @rozelidorenascer
Silvia Souza
Liderança comunitária da Bom Jesus, em Porto Alegre, é responsável pela gestão do Centro Esportivo Cultural da comunidade, que atende centenas de crianças e jovens. Também é articuladora social e uma das fundadoras do Núcleo dos Africanistas da Bom Jesus.
Instagram: @silvia_rs31
Gicele Melo
Uma das fundadoras da Associação Projeto Surfar, que atua há mais de 26 anos no bairro Partenon, em Porto Alegre. Desenvolve o projeto Ondas de Cidadania, além de oficinas de surf, capoeira e atividades voltadas para crianças, jovens e adultos.
Instagram: @gi_surfar | @projeto.surfar
Kerlys de Los Angeles Silva Guapez
Nascida na Venezuela, vive no Brasil desde 2018. Iniciou sua trajetória social ainda na escola, auxiliando colegas imigrantes, e atualmente atua na assistência social, desenvolvendo ações voltadas ao acolhimento e apoio às pessoas em situação de vulnerabilidade. Atualmente desenvolve ações em Erechim juntamente com a CUFA RS
Instagram: @kerlys___
Maria Aparecida da Rosa
Conhecida como Dona Maria, é uma liderança respeitada na comunidade Santo Afonso, em Sapucaia do Sul. Serve diariamente entre 50 e 100 refeições para crianças e mantém atividades esportivas, incluindo aulas de artes marciais.
Instagram: @projetocoracaodemaria
Joel Carvalho de Arruda
Liderança da comunidade Bom Jesus, em Porto Alegre, criou uma escola comunitária de futebol que atende mais de 120 crianças. Utiliza o esporte como ferramenta de inclusão, disciplina e desenvolvimento social.
Instagram: @river_plate_bj
Gilson Perdomo
Professor de percussão do Projeto Batukai e idealizador do Projeto Kombinando em Caçapava do Sul. Utiliza a música como instrumento de educação, inclusão e transformação social, atuando também com alunos da Apae e em atividades culturais nas comunidades.
Instagram: @fielbatukai @gilson_machado_per
Irineia Grilo
Liderança comunitária de Guaíba e coordenadora do Projeto Social Barcelona. Desde 2013 utiliza o futebol como ferramenta de inclusão social, impactando mais de mil crianças e adolescentes através do esporte.
Instagram: @barcelonaguaiba | @irineia_grilo
Fábio Flores
Presidente da Associação Passo-Fundense de Cegos (Apace), Fábio Flores atua na defesa dos direitos das pessoas com deficiência visual. Desenvolve projetos de inclusão, acessibilidade e fortalecimento da participação social em Passo Fundo.
Instagram: @fabioflores452
Leila Portela
Liderança da comunidade indígena Kaingang Goj Veso, em Iraí. Atua na preservação da cultura indígena e na defesa dos direitos dos povos originários.
Instagram: @leilam.portela
Leandro Luiz Schneider
Educador da Rede Marista há mais de 20 anos, atua com robótica e tecnologia educacional na comunidade Nova Santa Marta. Seu trabalho incentiva crianças e jovens a desenvolverem habilidades em ciência, inovação e cultura digital.
Instagram: @leandro_.schneider
Sandra Borba
Fundadora do Clube de Mães Santo Antônio, organização social de Alvorada que atende aproximadamente 150 crianças e 35 idosos por meio de atividades como jiu-jítsu, capoeira, balé e ginástica para a terceira idade.
Instagram: @clube1968maessantoantonio
Sergio Duarte
Idealizador do projeto Meninos da Vila, de Pelotas, utiliza o esporte para promover inclusão e oportunidades para crianças e adolescentes. Para manter as atividades, mobiliza parceiros e realiza ações solidárias na comunidade.
Instagram: @meneguetti77
Tainá Pavão
Moradora dos Trilhos, em Montenegro, é estudante de Jornalismo da UFRGS, comunicadora comunitária e integrante do Núcleo de Comunicação e Juventude da CUFA Montenegro. Atua como palestrante, mediadora e liderança jovem em iniciativas sociais e culturais.
Instagram: @tai.pavao
Jucemar Alves
Líder comunitário do bairro Nossa Senhora de Fátima, em Caxias do Sul. Atua em projetos voltados à inclusão de idosos, escolinhas esportivas e equoterapia para crianças com deficiência, além de ter coordenado ações de resgate durante as enchentes.
Instagram: @jucemaralves
Cinara Freitas Rodrigues de Oliveira e Diomar Lopes Ercio
https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/junior-torres/noticia/2026/05/todas-as-maes-negras-lutam-para-proteger-seus-filhos-desde-14-de-maio-de-1888-diz-tia-ma-em-seminario-da-cufa-cmp64v58z01vv016dessrce3f.htmlLideranças do Residencial Marielle Franco e da Ocupação Sementes de Marielle, em Sapucaia do Sul. Atuam na organização comunitária e na luta pela moradia digna, auxiliando famílias em processos de regularização fundiária e fortalecendo outras ocupações da região.






