
Quando se fala em gastronomia, muita gente pensa primeiro em restaurantes premiados, chefs renomados ou pratos sofisticados. Mas existe uma gastronomia que quase nunca aparece nas capas das revistas e, ainda assim, alimenta milhares de pessoas todos os dias: a gastronomia da favela.
Na favela, cozinhar nunca foi apenas uma profissão. Sempre foi uma estratégia de sobrevivência, solidariedade e transformação social.
Foi em volta de um fogão que muitas famílias enfrentaram a fome. Foi dentro das cozinhas comunitárias que comunidades inteiras encontraram dignidade. Foi através da produção de marmitas que mães conseguiram sustentar seus filhos. E foi preparando alimentos que milhares de pessoas descobriram um caminho para empreender.
Durante a enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024, o Brasil conheceu essa força. Enquanto muitos enxergavam apenas o desastre, as cozinhas das periferias se transformaram em uma verdadeira operação humanitária. Centenas de voluntários trabalharam dia e noite preparando refeições para quem havia perdido tudo. Não importava o horário, a chuva ou o cansaço. O fogão não podia apagar.
Milhares de marmitas saíram diariamente das cozinhas comunitárias organizadas por moradores das próprias periferias. Ali, não havia apenas arroz, feijão e carne. Havia acolhimento, esperança e a certeza de que ninguém deveria enfrentar uma tragédia com fome. Essa capacidade não surgiu por acaso.
Grande parte das pessoas que trabalham produzindo alimentos em restaurantes, hotéis, escolas, hospitais, padarias, confeitarias, lanchonetes e serviços de buffet, mora nas periferias das cidades. É a mão de obra da favela que movimenta diariamente uma parcela significativa da cadeia da alimentação.
Por isso, investir em gastronomia nas periferias não é apenas uma política de assistência social. É uma política de desenvolvimento econômico.
Programas como o Renda e Sabores, da Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Profissional do Rio Grande do Sul, mostram que capacitar e regularizar vendedores de lanches e pequenos empreendedores da alimentação, significa transformar vidas. Cada certificado representa uma nova oportunidade de trabalho, aumento de renda e fortalecimento da economia local.
Da mesma forma, iniciativas como o Prato Gaúcho e o Emancipa Família Gaúcha, da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado, vão além de servir uma refeição e capacitar em gastronomia. Garantem dignidade, segurança alimentar e a perspectiva de um futuro melhor para milhares de famílias que enfrentam a fome. Alimentar alguém é, também, devolver esperança.
Outro exemplo inspirador é o Restaurante Popular do bairro Guajuviras, em Canoas. Todos os dias, cerca de 250 pessoas encontram ali muito mais do que um almoço. Encontram acolhimento, respeito e a certeza de que a sociedade não desistiu delas. Para quem vive em situação de vulnerabilidade, uma refeição de qualidade representa também a possibilidade de recomeçar com mais dignidade e perspectiva de futuro.
Na CUFA Rio Grande do Sul, acompanhamos diariamente histórias de mulheres que começaram cozinhando para alimentar seus vizinhos e hoje sustentam suas famílias, vendendo refeições, bolos, doces e serviços de buffet. São exemplos de que a gastronomia pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão produtiva.
A cozinha da favela reúne aquilo que o Brasil tem de melhor: criatividade, solidariedade, diversidade cultural e capacidade de inovação.
Talvez esteja na hora de olharmos para a gastronomia das periferias não apenas como um instrumento para combater a fome, mas como um dos maiores motores de desenvolvimento social e econômico do país.
Porque, antes de chegar aos grandes restaurantes, a comida brasileira quase sempre começa em uma cozinha de favela. E quando investimos na gastronomia das periferias, não estamos apenas formando cozinheiros. Estamos alimentando sonhos, gerando renda, fortalecendo comunidades e construindo um Rio Grande do Sul mais justo para todos.





