
A frase dita por Tia Má no encerramento do painel Coisa de Mãe Preta silenciou o Teatro Roberto Athayde Cardona por alguns segundos e resumiu, com força e precisão, um sentimento que atravessou todo o debate realizado durante o seminário 14/05 – O Dia Seguinte, e Agora?, em Montenegro.
Ao lado de Gabi Valente, CEO e fundadora da Escola de Diaristas, de Rochele Lino, servidora pública da Sedac, e de Maria Cristina Santos, promotora em saúde da população negra, Tia Má, jornalista, escritora e roteirista, conduziu uma conversa que tocou em um dos temas mais profundos e latentes da sociedade brasileira: a maternidade negra e as camadas de responsabilidade, medo e resistência que atravessam essas mulheres diariamente.
Foram 30 minutos de fala direta, sem filtros e sem rodeios.
Quatro mulheres negras com o microfone nas mãos traduzindo dores, preocupações e reflexões que representam a vivência de uma plateia majoritariamente feminina e negra, que se reconhecia em cada relato.
O painel expôs uma realidade muitas vezes invisibilizada. Mulheres que sustentam famílias, educam, acolhem, organizam a vida cotidiana e, ao mesmo tempo, carregam a tarefa silenciosa de preparar seus filhos para enfrentar uma sociedade estruturalmente racista.
Ser mãe, por si só, já exige entrega.
Ser mãe negra no Brasil exige, além disso, vigilância permanente diante do mundo.
Exige ensinar sobre dignidade e autoestima enquanto se alerta sobre os riscos impostos por um mundo que, muitas vezes, enxerga esses corpos com suspeita antes mesmo de enxergá-los com humanidade.
Em sua fala, Gabi Valente trouxe um relato pessoal que traduz bem esse peso:
— Eu sou filha de mulher negra e mãe de duas crianças negras, e cada vez entendo mais a importância do meu papel, na questão cidadã de formar o caráter e também trazer a clareza e lucidez da necessidade deles se preservarem nesta sociedade.
A reflexão atravessou o público porque revela uma verdade dura: mães negras educam para o futuro e a sobrevivência.
Ao longo do painel, elas falaram sobre as preocupações que atravessam o cotidiano dessas mulheres, a necessidade constante de serem multitarefas e o esforço diário para equilibrar proteção, afeto, sustento e orientação.
Foi então que Tia Má encerrou com a frase que se tornou síntese do encontro:
— Todas as mães negras lutam para proteger seus filhos desde 14 de maio de 1888.
A provocação carrega o sentido histórico do seminário.
Se o 13 de maio marcou a assinatura formal da abolição, o 14 de maio expôs o abandono.
E, desde então, gerações de mães negras seguem assumindo, muitas vezes sozinhas, a tarefa de proteger seus filhos das ausências que o Estado nunca reparou.
Este painel foi um lembrete poderoso de que a luta por justiça racial também passa, todos os dias, pelo colo e coragem dessas mulheres.



