
Ao longo do dia, grandes nomes e pensadores da atualidade passaram pelo palco do Teatro Roberto Athayde Cardona, na cidade de Montenegro, no Vale do Caí, trazendo reflexões profundas sobre racismo estrutural e os caminhos possíveis para a transformação.
Um dos momentos centrais da programação foi o painel “Humanos: um raio X da vida real”, que reuniu Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas e da Favela Holding, escritor e empresário de impacto social do ano, Marcus Vinicius Athayde, presidente global da CUFA e vice-presidente do Instituto Data Favela, e Antônio Padilha, secretário executivo do programa RS Seguro, para um debate sobre desigualdade, exclusão histórica, segurança pública e a urgência de compreender a realidade das periferias a partir de quem vive esses territórios.
Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas e da Favela Holding, escritor e empresário de impacto social do ano, trouxe uma reflexão importante sobre a necessidade de encarar os erros históricos que ainda atravessam a sociedade brasileira:
— É preciso reconhecer os erros históricos que permeiam a nossa sociedade. E, apesar de todas as dificuldades impostas por essa história, as favelas e periferias seguem pulsando potência. Nosso lema na CUFA é claro: favela não é carência, favela é potência.
Ao lado dele, Marcus Vinicius Athayde, presidente global da CUFA e vice-presidente do Instituto Data Favela, apresentou um dado relevante da pesquisa Raio X da Vida Real, que mostra que 75% das pessoas em situação de crime nas favelas e periferias são homens negros de até 25 anos.
Marcus ressaltou a importância histórica do seminário e da reflexão proposta pelo evento:
— Esse evento é fundamental para trazer visibilidade a problemas que nós, negros, enfrentamos desde o fim da escravidão. Sabe o que aconteceu no dia seguinte? O governo brasileiro decidiu que quem deveria trabalhar recebendo salário não seriam os ex-escravizados, mas sim europeus que vieram através de políticas de migração em massa com o objetivo de embranquecer nossa população. Então esse evento não é somente a resistência da nossa cultura, mas sobretudo o engrandecimento daqueles que de fato fundaram as bases do nosso país e não foram devidamente reconhecidos por isso.
Para Antônio Padilha, secretário executivo do programa RS Seguro, compreender as desigualdades históricas e raciais é condição para construir políticas públicas efetivas e conectadas com a realidade dos territórios.
— Esses não são lugares violentos, são lugares violentados, e por isso políticas públicas efetivas são muito necessárias, com um olhar atento do Estado para ajudar na transformação — afirma o secretário.
Ainda passaram pelo palco nomes como Zezé Motta, Tia Má, Negra li, Selminha Sorriso, Kelly Mattos, Bia Araújo, Gabi Valente e outras vozes que carregam a pauta racial como compromisso diário de transformação.
Realizado há 12 anos pela CUFA RS Montenegro, por meio do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, o seminário nasceu para provocar uma reflexão necessária sobre o 14 de maio, o dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem inclusão e sem políticas reais de cidadania.
Mais de um século depois, essa pergunta ainda precisa ser respondida.
O 14 de maio não é apenas uma data.
É um chamado à memória, à responsabilidade e à construção de um futuro mais justo.


