
Nos próximos dias, o Rio Grande do Sul relembra dois anos da maior enchente de sua história recente. Foram 478 municípios atingidos, mais de 735 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas e um Estado inteiro obrigado a encarar, de forma concreta, os efeitos das mudanças climáticas.
Durante as enchentes de 2024, a Cufa Rio Grande do Sul esteve na linha de frente da resposta humanitária, distribuindo mais de 4 mil toneladas de doações, colocando em funcionamento mais de 100 cozinhas comunitárias, instalando lavanderias solidárias e entregando milhares de cartões-refeição.
Mas o principal legado daquele momento não está nos números, está no aprendizado de que preparação salva vidas.
A crise climática deixou de ser uma hipótese futura. Ela já chegou. E, se as enchentes deixaram uma lição, é que a resiliência precisa começar antes da água subir.
Foi a partir dessa compreensão que a Cufa RS criou seu Escritório de Resiliência Climática, anunciado durante a COP 29, no Azerbaijão, para pensar soluções concretas voltadas às comunidades mais vulneráveis. O diagnóstico realizado junto às periferias gaúchas revelou um cenário alarmante: a maioria dos moradores vive em áreas sem plano de contingência, sem rotas de fuga e sem preparação para novos eventos extremos.
Diante dessa realidade, damos agora um novo passo. Com aporte do Regenera RS, lançamos o programa “Lideranças Comunitárias: o primeiro passo para a resiliência”, iniciativa que vai formar bombeiros civis comunitários e estruturar núcleos comunitários de apoio para atuação em futuras enchentes nas cidades de Canoas, Alvorada, Muçum e Eldorado do Sul.
A primeira turma começa em Canoas e marca um projeto inédito no Rio Grande do Sul. Pela primeira vez, um programa dessa natureza reunirá egressos do sistema prisional, apenados em regime de semiliberdade e lideranças comunitárias em uma mesma formação voltada à resposta emergencial e à proteção territorial.
Trata-se de uma iniciativa que une prevenção climática, reinserção social e fortalecimento comunitário.
Nesta semana, em reunião com o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Dênis Konrad, firmamos a parceria com a Prefeitura de Canoas para viabilizar a primeira etapa do projeto. Ao todo, 30 participantes integrarão a fase inicial da formação em Canoas.
Estamos estruturando mais do que um curso, este será o primeiro modelo de núcleos comunitários de apoio a emergências climáticas em favelas e periferias do Estado, espaços preparados, equipados e conectados às lideranças locais para responder com rapidez quando novas tragédias acontecerem.
E elas acontecerão. Os alertas para novos eventos extremos estão postos. Ignorar essa realidade seria insistir nos erros do passado.
A memória da enchente não pode servir apenas para lamentar o que perdemos. Ela precisa servir para construir o que ainda podemos salvar.
A resiliência climática começa onde o impacto chega primeiro: nas favelas, nas periferias, nos ribeirinhos e nas comunidades preparadas.
É ali que estamos construindo o futuro.






