
Durante muito tempo, as favelas foram retratadas apenas a partir da ausência: ausência de políticas públicas, de infraestrutura, de oportunidades. Mas é preciso virar essa lente. No Rio Grande do Sul, as favelas, periferias e comunidades populares não são apenas territórios de vulnerabilidade – são também territórios de produção, consumo, inovação e riqueza.
Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, onde 16.390.815 pessoas viviam em 2022. Isso representa cerca de 8,1% da população brasileira – ou seja, mais de uma em cada 13 pessoas no país reside nesses territórios.
O levantamento aponta um crescimento de 43,4% na população que vive em favelas entre 2010 e 2022, quando eram pouco mais de 11,4 milhões – reflexo tanto das dinâmicas urbanas quanto da incorporação de áreas antes não mapeadas como comunidade.
Nas favelas brasileiras há mais de 6,5 milhões de domicílios e um número expressivo de estabelecimentos econômicos: oficinas mecânicas, lojas, salões e pequenos comércios compõem uma parcela relevante da atividade econômica local.
Além disso, esses territórios são mais jovens: a idade mediana nas favelas era de 30 anos, inferior à mediana nacional, o que evidencia um contingente populacional potencialmente ativo e criador de valor.
O Rio Grande do Sul no contexto nacional
No Rio Grande do Sul, os dados do mesmo Censo confirmam a presença significativa de favelas – ainda que menor em proporção do que nas grandes metrópoles do Sudeste.
O IBGE identificou 481 favelas e comunidades urbanas no estado, com 416.428 pessoas vivendo nesses territórios em 2022 – o equivalente a cerca de 3,8% da população estadual, se considerarmos as regiões de periferia descobertas pelo senso passa de 10% da população gaúcha .
Hoje seria o equivalente a segunda maior cidade do estado
A maioria dessas pessoas está concentrada na região metropolitana de Porto Alegre, que responde pela maior parte dos casos e reflete a urbanização desigual que caracteriza muitas cidades brasileiras.
Favelas como economia real
Quando falamos em “riqueza”, não estamos nos referindo apenas a cifras frias de PIB. Estamos falando de economia real: do salão de beleza que emprega três mulheres da comunidade; do pedreiro que sustenta a família com obras locais; da empreendedora que vende marmitas; do jovem que cria uma marca de roupas; da cooperativa de reciclagem que movimenta toneladas por mês.
O Instituto Data Favela – estima que a renda gerada por moradores de favelas no Brasil ultrapassa R$ 300 bilhões ao ano, valor comparável ao PIB de estados inteiros. Esse horizonte sugere que políticas públicas de apoio poderiam converter grande parte desse potencial em crescimento formal e sustentável.
Economia que nasce da necessidade e vira potência
A informalidade, muitas vezes vista como problema, também revela capacidade empreendedora. Onde o Estado não chega, a comunidade cria solução. Surge o mercado local, a rede de apoio, o crédito informal, a inovação na prática.
Se houvesse mais acesso a microcrédito estruturado, capacitação técnica e regularização simplificada, o impacto econômico dessas comunidades poderia ser exponencial. Não se trata de assistencialismo. Trata-se de investimento inteligente.
Juventude: maior ativo econômico
Nas periferias está uma das maiores concentrações de jovens do estado. Essa juventude, quando tem acesso à formação, tecnologia e oportunidades, não apenas muda sua própria realidade – ela transforma o mercado de trabalho regional.
Ignorar esse potencial é um erro estratégico para o desenvolvimento do estado.
O futuro passa pela periferia
O desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul não virá apenas dos grandes polos industriais ou do agronegócio. Ele passa, necessariamente, pelas periferias urbanas. As favelas não são um problema a ser tolerado. São um ativo econômico a ser reconhecido.
Quando o Estado e as empresas decidem investir nesses territórios, o retorno não é apenas social – é financeiro, produtivo e sustentável.



