Quase toda família guarda uma caixa de fotografias que passa anos sem ser aberta. Um dia, alguém a encontra no fundo de uma gaveta, espalha as imagens sobre a mesa e a tarde muda de rumo.
É de caixas como essas que nasceu Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, exposição que abre às 14h deste sábado (12), na Fundação Iberê, em Porto Alegre, e segue até 28 de fevereiro de 2027. A curadoria é de Rosalie Varda, filha de Agnès, e do português João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles (IMS).
Depois da morte de Agnès Varda, em 2019, Rosalie passou a vasculhar um arquivo de dezenas de milhares de negativos e folhas de contato. Em uma das caixas, encontrou algo que nunca havia visto: autorretratos da mãe aos 30 anos, nua e grávida dela. A imagem existia havia mais de seis décadas, mas revelava à filha uma Agnès que ela ainda não conhecia.
— Acho que nunca conhecemos de verdade nossos pais. Nós os conhecemos pela lente de sermos filhos, mas nunca conhecemos realmente a vida deles — diz Rosalie.
Organizada pelo IMS, que tornou possível a realização do projeto no Brasil, a mostra chega à Capital em parceria com a Fundação Iberê.
Zero Hora acompanhou a montagem da exposição e conversou com os dois curadores.
Varda e a fotografia
A cineasta que o mundo celebraria por Cléo das 5 às 7 (1962) e Os Renegados (1985) começou a vida profissional atrás de uma câmera fotográfica. Para Rosalie, isso é parte das lembranças da infância.
— Quando eu era criança, fui criada mais com uma fotógrafa do que com uma cineasta. Ela tinha o próprio estúdio, o próprio laboratório. Eu voltava da escola sentindo o cheiro dos produtos químicos — conta.
A transição de Varda para a imagem em movimento teria nascido de uma insatisfação. Rosalie lembra que a mãe dizia que, em determinado momento, a fotografia já não bastava, queria saber o que existia antes e depois daquele instante.
— Mas ela sempre manteve os mundos juntos. Para ela, cada história tinha uma maneira de ser compartilhada: fotografia, curta, documentário, ficção — explica Rosalie.

O reconhecimento como fotógrafa, porém, não acompanhou o que viria no cinema. Quando voltou da China, em 1957, com milhares de imagens, Varda procurou uma agência para tentar distribuí-las à imprensa, mas ouviu que não havia interesse.
— Então ela colocou as fotografias de volta na caixa. E acabou. Elas praticamente nunca foram mostradas — relata.
Décadas mais tarde, parte considerável daquele trabalho continuava guardada. Quando João Fernandes começou a tentar convencer Agnès a revisitá-lo, encontrou uma resistência bem-humorada.
— Ela dizia: “Se você quer me desafiar a fazer videoinstalações, estou pronta. Mas as fotografias têm que voltar para as minhas caixas. Esse é o começo da minha história, e eu não tenho tempo para isso” — lembra o curador.
Naquele momento, Varda preferia se apresentar como uma “jovem artista contemporânea”. Rosalie acredita que a recusa também escondia uma ferida antiga:
— O mundo da fotografia não achava que ela fosse fotógrafa. E ela era. Acho que havia uma insegurança. Ela ficava um pouco triste por as pessoas não entenderem o trabalho fotográfico dela.
Abrindo as caixas
A morte de Agnès mudou a natureza daquele arquivo. O que antes era uma parte da própria história que ela não tinha pressa de revisitar ficou sob os cuidados de sua filha. Abrir as caixas, no entanto, não significou apenas entrar no passado.
— Foi alegre. Eu não conseguiria fazer o que faço hoje com o legado de Agnès e Jacques Demy se não tivesse trabalhado com ela. Passamos uns 15 anos juntas, todos os dias, em projetos novos. Ela chegava perto dos 90 e dizia: “Estou um pouco entediada, vamos fazer um projeto novo”. Conhecê-la melhor me permitiu abrir as caixas. É alegre porque fazemos descobertas. A gente olha e pensa: “Meu Deus, ela fez isso” — conta Rosalie.

Ainda há muito por encontrar. Rosalie fala em cerca de 30 mil negativos e conta que pesquisadores começam agora a visitar o arquivo.
— Ainda me emociono quando vejo a primeira exposição dela. Me emociono pensando que ela mesma imprimiu aquelas fotografias. Me emociono imaginando o que aconteceu quando estava em Cuba e olhou para aquelas mulheres. Tenho muita sorte por cuidar desse legado — diz.
Mãe e filha: mulheres
Os 15 anos de trabalho lado a lado também fizeram com que mãe e filha se encontrassem fora dos papéis que haviam ocupado durante a infância. Rosalie passou a ouvir histórias às quais uma criança normalmente não tem acesso.
— Descobri um pouco mais sobre a vida dela, inclusive a vida amorosa. Quando você é criança, conhece uma parte, mas não conhece a segunda, a terceira ou a quarta. Tivemos mais tempo para compartilhar emoções da vida pessoal, histórias de amor, separações, dificuldades. Acho que isso nos deixou mais próximas — conta.
Com o envelhecimento de Agnès, a relação entre as duas ainda passaria por outra mudança.
— No fim da vida dela, comecei a me tornar a mãe da minha própria mãe, porque passei a cuidar dela. É um círculo lógico da vida. Em algum momento, você passa a cuidar dos seus pais. E foi doce. Por isso não fiquei tão triste quando ela morreu. Nós tínhamos trabalhado juntas, tinha sido bom. E eu sabia que ela precisava morrer. Então estava tudo bem — diz Rosalie.
Varda e a política
A atenção às pessoas também orientava a maneira como Agnès se aproximava de acontecimentos políticos. Rosalie encontra um exemplo na origem de Black Panthers (1968).
A família vivia em Los Angeles quando Tom Luddy telefonou para contar que havia um movimento político negro promovendo manifestações aos sábados em Oakland. Sugeriu que Agnès fosse ver o que estava acontecendo.

Depois daquela primeira visita, decidiu que voltaria no sábado seguinte com uma câmera.
— Ela talvez nem soubesse exatamente o que faria com aquelas imagens. Mas queria estar lá. Queria filmar, queria entrevistar. Acho extraordinária essa capacidade que ela tinha de estar conectada ao momento — conta a filha.
Rosalie evita, contudo, reduzir a obra da mãe a uma filiação política.
— Não gosto muito de olhar para os filmes dela só dessa maneira. Acho que ela era engajada. Engajada na vida, nas pessoas em dificuldade, nas mulheres em dificuldade. Engajada como artista e em tentar compartilhar. Os filmes dela são políticos, mas, para mim, arte é política — diz.
Ao lado, João Fernandes formula de outro modo:
— Agnès não era uma ativista política. Era uma ativista humana. Ela não trabalhava para ideias. Trabalhava para pessoas. Construía relações com elas através do trabalho. E isso muda tudo.

Amar as pessoas
Essa relação talvez ajude a explicar por que uma artista nascida em 1928 continua atraindo públicos tão jovens. A exposição recebeu grande público em São Paulo e, poucos dias antes de chegar a Porto Alegre, Rosalie estivera em Estocolmo diante de outra plateia cheia de jovens.
— Amar as pessoas. Amar as pessoas, mesmo quando ela não as conhecia — resume Rosalie.
Rosalie aponta para os retratos feitos em Cuba.
— Quando vejo essas pessoas, sinto que ela as amava. Nunca existe aquela sensação de roubar uma imagem. Aquela jovem diante do mosaico de Fidel Castro: sinto que ela amou aquela mulher. Existe humanidade na maneira como ela fotografa — diz.
A curadoria feita para o Brasil
A seleção também buscou relações com a história do país. Entre milhares de fotografias de teatro feitas por Agnès, a curadoria escolheu imagens de Papa Bon Dieu, espetáculo da companhia Les Griots.
— A companhia foi fundada por Sarah Maldoror e seus amigos. Ela criou a primeira companhia de teatro negro da França e tinha contato com Abdias Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro no Brasil. Trazer essas imagens fazia mais sentido do que trazer Molière ou Racine — afirma Fernandes.

A conexão reaparece nos registros de Cuba.
— Em vários pontos desta exposição, poderíamos estar no Brasil. Isso faz parte da diáspora negra. Tentamos desenvolver um olhar sobre a fotografia de Agnès que fizesse sentido aqui — explica o curador.
O anjo Fidel
Rosalie começa a andar pelas salas. Para diante de fotografias, aponta detalhes, recua, volta a uma parede.
Na série chinesa, lembra que Agnès teve uma liberdade rara para percorrer o país em 1957, antes da Revolução Cultural. Foi a lugares no interior onde Marc Riboud e Cartier-Bresson não foram. Há lugares que ela foi uma das únicas fotógrafas a registrar e que desapareceram.
Pouco depois, Rosalie quer encontrar a foto de Fidel Castro. Não acha de primeira. Passa pela série portuguesa, olha para uma das imagens de trabalhadores e se distrai por alguns segundos:
— Parece um balé. É como se estivessem dançando.
Então volta à procura. Atravessa outra parte da exposição, pede ajuda e finalmente encontra o retrato.

— Olha. Não é lindo? — diz Rosalie.
Castro aparece diante de uma formação de pedra que abre duas grandes asas às suas costas. Agnès havia ido ao restaurante onde ele almoçava e pedido que saísse para ser fotografado. Escolheu o lugar, dirigiu a pose, posicionou as mãos e pediu que olhasse para a câmera.
Só depois percebeu as asas.
— Ela me disse: “Quando fiz a foto, não vi as asas”. Ela viu o lugar, colocou Fidel ali, dirigiu tudo. Só depois descobriu que as asas estavam atrás dele — conta Rosalie.
— Ela dizia que era a utopia da revolução, com as asas de pedra. São pesadas demais — acrescenta.
Perto dali, outra lembrança de Cuba leva Rosalie de volta à própria infância. Agnès trouxe da viagem uma boneca negra para a filha, então uma menina loira de cinco anos.

Uma nova vida
A caminhada pelas fotografias dá uma dimensão concreta ao que Rosalie havia dito minutos antes sobre cuidar do arquivo.
— Acho extraordinário que, depois da vida na Terra, os artistas tenham uma nova vida. Eles ainda podem estar vivos — diz Rosalie.
É difícil saber, ali, se ela está guiando uma visita, recordando histórias de família ou ainda abrindo as caixas da vida. Talvez não haja muita diferença. Ela chega a uma conclusão que parece acompanhar cada uma daquelas imagens:
— Não posso conversar com ela. Não podemos rir. Não posso dizer: “Vamos fazer isso”. Mas para mim, minha mãe está viva. Ela está aqui.
Programe-se
- O quê: Fotografia AGNÈS VARDA Cinema
- Onde: Fundação Iberê (Avenida Padre Cacique, 2000, bairro Cristal, Porto Alegre)
- Abertura: sábado (12), às 14h
- Conversa com Rosalie Varda e João Fernandes: sábado (12), às 16h, no auditório, com tradução simultânea
- Visitação: até 28 de fevereiro de 2027, de quinta-feira a domingo e feriados, das 14h às 18h
- Ingressos: entrada gratuita no dia da abertura; nos demais dias, R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 30 (dois ingressos). Às quintas-feiras, a entrada é gratuita.
*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz, titular deste espaço.





