Uma tentativa de ajudar a mãe durante um período de depressão acabou mudando também a vida de Luciana Reck. Aos 32 anos, ela começou a fazer sabonetes artesanais na cozinha da família, em Gramado, apenas para criar uma atividade que as duas pudessem compartilhar.
A brincadeira despertou uma curiosidade que não parou mais. Luciana estudou perfumaria, mergulhou no universo dos aromas e fundou a Santho Aroma, empresa que há 23 anos desenvolve fragrâncias e identidades olfativas para marcas e ambientes.
Hoje, o trabalho já chegou a hotéis, restaurantes e até lugares menos óbvios, como parques de diversões e funerárias. No Paralelas, Luciana conversou com Juliana Bublitz sobre memória, sensibilidade e a capacidade que um cheiro tem de transportar as pessoas para outro lugar quase instantaneamente.
Leia abaixo um trecho da entrevista, disponível na íntegra no YouTube de GZH e no Spotify. O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira, no início da tarde.

De onde vem essa tua relação tão forte com o olfato?
Os cheiros me atravessaram, os perfumes me atravessaram. Comecei esse trabalho com a Santho Aroma, que não começou com um trabalho. Começou com uma relação de amor e afeto entre mãe e filha.
Eu estava com 32 anos e minha mãe passava por um processo de depressão muito profunda. Vivia acamada, em tratamento, e aquilo começou a me afligir como filha. Um dia pensei: preciso fazer alguma coisa, preciso resgatar minha mãe.
Na época, começaram a divulgar aquelas bases de sabonetes artesanais. Comprei as bases, essências prontas e pensei em criar um momento meu com ela. Saía do trabalho e ia para a casa dela manipular aquilo na cozinha, tentando fazer com que ela também se interessasse.
Durante uma semana, nada. No oitavo dia, cheguei lá e ela já estava na cozinha, manipulando a matéria-prima por conta própria.
E foi daí que nasceu a Santho Aroma?
Começamos a brincar. Era sabonete para cá, sabonete para lá. Todo mundo ganhou sabonete: amigos, família, ninguém aguentava mais (risos).
Aquilo me fez pensar no que existia por trás. Comecei a estudar o impacto dos aromas, dos cheiros e dos perfumes na vida das pessoas, no emocional. Foi aí que me apaixonei pelo olfato e não parei mais.
Minha mãe já estava se sentindo bem melhor e eu disse: "Quem sabe a gente leva isso mais a sério e se profissionaliza?". Ela topou. Minha mãe sempre tinha sido do lar, nunca tinha tido negócio nenhum.
Como um hobby virou uma empresa?
Comecei a fazer algumas fragrâncias piloto para aromatizar a minha casa. Uma amiga foi lá e disse: "Tenho uma pousada, deixa eu levar para lá". Ela levou, e os hóspedes começaram a perguntar onde poderiam comprar.
Aí pensei: por que não perfumes de ambiente para transformar a atmosfera das casas e a vida das pessoas?
Depois abrimos a primeira boutique de aromas. Quando estávamos decorando a loja, havia um adesivo na vitrine dizendo "boutique de aromas para casa". As pessoas diziam: "Luciana, tu estás louca. Isso não vai durar três meses. Quem é que vai comprar perfume para casa?".
Naquela época, não era comum. A gente comprava um Bom Ar no supermercado para o banheiro. E nós estávamos propondo outro olhar.
O que é, afinal, marketing olfativo?
É uma ferramenta do marketing que explora o olfato. Hoje, qualquer negócio ou marca pode ter uma identidade olfativa.
É uma ferramenta para fazer conexão, marcar território e gerar lembrança. Não é só sobre o sensorial naquele momento em que a pessoa está no ambiente. Depois, aquele perfume pode resgatar a experiência que ela viveu ali.
O olfato é o único dos sentidos que tem uma ligação direta com as emoções. Ele não pede permissão para a razão. Tu sentes e, em uma fração de segundo, aquilo pode te levar a um lugar, a uma pessoa, a uma viagem.
Entre os projetos que vocês fizeram, teve algum que te marcou?
Tivemos vários. Um caso muito legal é o Hotel Colline de France, em Gramado. Desenvolvemos a fragrância antes de o hotel estar pronto, ainda no projeto.
A proprietária nos apresentou o que seria a decoração, o propósito, o conceito. Em cima disso, elaboramos a fragrância. Desde então, o hotel exala aquele perfume e os hóspedes identificam o aroma, querem levar para casa.
Já desenvolvemos também para chef de cozinha, escritórios de advocacia, clínicas e parques de diversão. O céu é o limite.
Como se cria uma fragrância para uma roda-gigante?
Depende do que ela quer transmitir. Fizemos a da roda-gigante de Recife. É um lugar quente, de praia, então trabalhamos a sensação de liberdade, aventura e alegria.
Os cítricos fazem isso muito bem. Os frutados também trazem essa sensação de prazer e satisfação.
Tu já criaste fragrância até para funerária?
Sim. Recebemos proprietários de funerária que adotaram uma fragrância.
Existe todo um momento anterior ao velório, quando as pessoas precisam resolver os trâmites. É preciso muito cuidado com essa questão emocional. Então, sim, é possível pensar nisso também.
Eu não colocaria uma fragrância oriental, por exemplo, porque é mais sensual. Uma fragrância doce também pode se tornar enjoativa. Precisa ser algo sutil, leve, que traga conforto e acolhimento sem se destacar.
E qual é o próximo passo da Santho Aroma?
Temos várias identidades olfativas na lista de espera, porque essa construção leva tempo. E estamos planejando uma loja em Porto Alegre. Porto Alegre é um grande cliente da marca.


