O jornalista Carlos Redel colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.
Eternizada na voz de Leopoldo Rassier (1936-2000), a música Não Podemo Se Entregá Pros Home faz um resumo do passar do tempo pelos olhos de um homem do campo: "Vieram cercas, porteiras, aramados / Veio o trator com seu ronco matraqueiro / E no tranco sem fim da evolução / Transformou a paisagem dos potreiros".
E se a lida campeira mudou com o avanço tecnológico, parte da história de um trabalho que era mais rústico e braçal está preservada em São Borja, como forma de homenagear aqueles que ajudaram a construir o Rio Grande do Sul. Trata-se do Museu Ergológico da Estância, criado em 1982 pelo Grupo Amador de Arte Os Angueras.
O espaço fica localizado na Rua João Palmeiro, 2318, no bairro Maria do Carmo, uma região não tão centralizada da cidade. Mesmo assim, recebe cerca de 250 visitantes por mês, interessados em entender melhor o passado do homem do Interior. E o público não vem apenas do Brasil, mas de países, como Argentina, Uruguai, Estados Unidos, China e França. No local, estão armazenadas mais de duas mil peças originais, que remontam de 1850 a 1950.
— Quando o galpão foi construído, havia poucos itens. Para enriquecer o acervo, Aparício Silva Rillo, um dos fundadores de Os Angueras e idealizador do museu, teve a ideia de recriar os antigos bailes de estância no local. A contrapartida para entrar no baile era a doação de uma peça antiga — explica a professora Rosângela Farias Fernandes, que é a guia das visitas do local há dez anos.
O nome do museu vem de "ergologia", termo associado ao estudo da cultura material e formado a partir dos elementos gregos érgon, "trabalho", e lógos, "tratado" ou "estudo". E dentro do grande galpão que abriga a história, é possível encontrar de tafonas a engenho de cana-de-açúcar, de ralador artesanal de mandioca a mobília da casa do estancieiro, de carroças a arados.
Costumes
Ainda tem a reconstrução de um bolicho de campanha, que retrata como era o comércio da beira de estrada de outra época, em que a comunidade se reunia para se divertir jogando bocha e tomando alguma coisinha para esquentar o corpo.
— Outro destaque do nosso museu é o galpão de fogo, feito em barro com tramas de taquara, capim-santa-fé e esterco de vaca para dar liga. Essa construção funciona como isolante térmico: é aquecida no inverno e fresca no verão. Os indígenas se reuniam ao redor do fogo devido ao frio rigoroso e os espanhóis aderiram a esse costume. Hoje, esse espaço perpetua a cultura da roda de chimarrão e dos causos — enfatiza Rosângela.
Mantido pelos Os Angueras em parceria com a Prefeitura de São Borja, o Museu Ergológico da Estância, que conta com cerca de 700m², pode ser visitado gratuitamente de terça a sexta-feira, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h.
— Cada peça é um patrimônio material e imaterial de todos esses personagens, homens e mulheres, que fizeram parte do nosso passado. A gente não chegou aqui por acaso, foi resultado de uma construção de saberes — completa a guia do passeio.
E quem estiver pela região, já pode aproveitar para conhecer as casas de João Goulart e Getúlio Vargas. Terra dos Presidentes e primeiro dos Sete Povos das Missões, São Borja é cheia de cultura!




