A jornalista Camila Bengo colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

Uma das personagens mais emblemáticas da mitologia urbana de Porto Alegre, Maria Degolada terá sua história contada de um jeito inédito.
A figura que povoa o imaginário da cidade é Maria Francelina Trenes, imigrante alemã que foi assassinada em 1899, aos 21 anos, pelas mãos do então companheiro. Ela, a mulher por trás do mito, será retratada em O Último Suspiro de Maria, ópera que estreia neste fim de semana.
O espetáculo terá sessões neste sábado (5), às 20h, e domingo (6), às 18h, no Teatro Simões Lopes Neto do Multipalco Eva Sopher. Os ingressos estão disponíveis no site do Theatro São Pedro.
Produzida pela Cia. Ópera Brasil, a montagem propõe reconstruir a trajetória da jovem antes do crime que ceifou sua vida e refletir sobre como a violência contra as mulheres atravessa os séculos.
As composições que ajudam a contar essa história são assinadas por Letícia Arnold. A direção musical e a regência são do maestro Tiago Flores, à frente da Orquestra da Ulbra. Também participa o Coro da PUCRS, regido por Marcio Buzzato.
A ópera tem libreto de Pedro Longes, direção cênica de Henrique Cambraia e direção artística de Yasmini Vargaz. A soprano também interpreta Maria Francelina no palco.
Valorizar histórias locais
O espetáculo começou a ser gestado há cerca de cinco anos, a partir de Yasmini. Ela passou um período fora do Estado e percebeu que, especialmente no sudeste do país, havia uma produção aquecida de óperas de compositores locais. De volta ao Rio Grande do Sul, questionou-se por que as histórias daqui também não poderiam ocupar o palco lírico.

Maria Francelina apareceu como escolha natural, pela multiplicidade de nuances que atravessam sua existência e memória.
— Maria Degolada é um mito de Porto Alegre conhecido por todos na cidade. Mas queremos olhar para esse mito de uma maneira mais humana, não apenas como a santa ou a assombração, representações que também cercam a história dela. Ela foi uma mulher real, teve vida para além do crime e tinha sonhos e desejos como qualquer outra — afirma Yasmini.
Durante o trabalho de pesquisa, a diretora encontrou documentos que trazem detalhes da vida de Maria Francelina. Também recorreu à história oral contada entre gerações de moradores da Vila Maria da Conceição, comunidade que se formou na área onde a jovem foi degolada e que preserva, ainda hoje, um santuário dedicado a ela.
— O desafio foi conseguir despir essa figura mítica, apresentando-a essencialmente como mulher — diz a diretora artística.
A ópera construiu uma narrativa que acompanha a protagonista desde sua chegada ao Brasil, passando pelo relacionamento com Bruno Bicudo — namorado e responsável por seu assassinato. O personagem será interpretado pelo barítono Oritz Campos.
No centro da história também está Sarmento, médico do Hospital Psiquiátrico São Pedro que seria apaixonado por Maria — cuja existência foi conhecida pela equipe a partir das conversas com moradores da Vila Maria da Conceição. O papel será do tenor João Ferreira Filho.
Atualidade inconveniente
A ópera ainda faz o exercício de imaginar outros desfechos para Maria Francelina. Afinal, como contar uma história que todos já sabem como termina?
— As perguntas que constantemente martelavam em nossas cabeças eram: "E se ela tivesse agido de outra forma? E se ela tivesse fugido?" Esses questionamentos guiam a narrativa — conta Yasmini.

Em um ano com índices elevados de feminicídio no RS, a história contada em O Último Suspiro de Maria não fica confinada ao passado. Para Yasmini, a inconveniente atualidade que cerca o espetáculo faz dele ainda mais pungente.
— Queremos mostrar, acima de tudo, que ninguém tem o direito de ceifar uma vida, não importa a época ou a justificativa. Trata-se da vida de uma mulher que foi interrompida de forma violenta há mais de 120 anos, com pretextos e comportamentos que, infelizmente, lembram os dias atuais — afirma a intérprete de Maria Degolada.




