Vera Bublitz ficou conhecida como a dama do balé no Rio Grande do Sul, e não é à toa.
Ela fundou a principal escola do ramo no Estado, que leva seu nome e caminha rumo às cinco décadas, exportando talentos e trazendo grandes nomes da dança para Porto Alegre.
Vera é a convidada do Paralelas da semana.
Leia abaixo um trecho da entrevista, disponível na íntegra no YouTube de GZH e no Spotify. O Paralelas tem novos episódios toda sexta-feira, no início da tarde.

Cresci ouvindo uma pergunta: “Tu és bailarina?” Somos parentes, Vera Bublitz (risos)?
Olha, na verdade, nós temos que fazer essa pesquisa, ainda está em tempo (risos). Eu sou catarinense e casei com um Bublitz, já vai fazer 67 anos. Fico impressionada como o tempo passa rápido e agradeço aos céus por estar ainda podendo sonhar, porque eu sonho muito. Eu gosto de criar, de fazer. E o balé mudou muito desde que comecei.
Mudou como?
O pessoal ia para o balé levar a filha para ela ser elegante, bonitinha, engraçadinha. Desde a pandemia, especialmente, a criança vem com o celular e diz para a mãe “eu quero dançar isso aqui que estão dançando lá na Coreia, no Japão, na França” (...) O balé mudou muito em tudo. No meu tempo, era só o clássico. Hoje, a Ópera de Paris, por exemplo, tem até danças urbanas, street dance, dança de rua. O trabalho da ginástica também veio para dentro do balé.
E o ideal da magreza? Quem é mais gordinha pode fazer balé?
Com certeza.
Ainda existe a pressão pelo corpo perfeito?
Existe, também. Existe um biotipo da bailarina. Mas agora, por exemplo, estive em Joinville e também vim da Itália faz pouco, lá as bailarinas que dançam muito bem nem sempre têm esse biotipo. Tem tem espaço para todos.
Qualquer pessoa pode aprender a dançar, mesmo sendo dura e descoordenada?
Eu não só acho que qualquer pessoa pode dançar, como qualquer pessoa deveria dançar. Dançar é algo que desopila. Eu vejo isso nas minhas alunas adultas. São profissionais, médicas, isso, aquilo. Tu chegas lá e esqueces de tudo, porque estás concentrada. É um momento de relaxamento.
O que a dança significa para ti?
A dança, a disciplina da sala de aula, a conquista do dia a dia da resiliência, o prazer de ver no corpo da gente o que mudou, o que melhorou, isso foi o que me ajudou a me encontrar. Mas o meu maior legado é na formação.
O ator Timothée Chalamet, que concorreu ao Oscar recentemente, disse que ninguém mais liga para o balé ou a ópera, porque, na visão dele, são antiquados. O que te parece?
Vivemos uma época muito imediatista. Tanta coisa que perdeu o valor... E o balé nunca foi tão importante. Quando eu recebo as crianças e educo essas crianças, eu não educo para serem bailarinas. Eu sei que estou contribuindo enormemente para a formação dessas meninas.
Aos 82 anos, tu sofres com o etarismo?
Não, eu tenho pena das pessoas que sofrem. A vida não é infinita, ela termina, mas estou jogando no segundo tempo e ainda estou querendo uma prorrogação e estou indo em frente, entendeu? (...) Viver é um aprendizado, e eu aprendo até hoje. É uma felicidade poder chegar aos 82 e viver plenamente.




