Nos primeiros anos de vida, bebês precisam de muito mais do que cuidados básicos. Precisam de rostos, vozes, olhares e contato humano. Em entrevista ao programa Paralelas, o psiquiatra, psicanalista e escritor gaúcho Celso Gutfreind afirma que quando essas experiências são substituídas precocemente pelas telas, o impacto sobre o desenvolvimento emocional pode ser devastador.
Para ele, o que está em jogo não é apenas a forma como uma criança se entretém, mas como ela constrói sua própria identidade. É a partir da convivência com outras pessoas que os bebês aprendem a reconhecer emoções, interpretar o mundo e compreender quem são.
– Uma criança educada por uma tela, como hoje isso tanto acontece, é uma catástrofe. Nos três primeiros anos de vida, é insubstituível a presença do outro. A gente é fruto disso, de alguém que nos olhou, de alguém que nos acolheu e nos deu colo. A máquina não dá colo – explica.

A observação surgiu durante uma conversa sobre um dos paradoxos da vida contemporânea: nunca foi tão fácil se conectar com outras pessoas, mas a sensação de solidão continua crescendo.
– A gente está muito conectado, mas falta uma experiência viva. Nada substitui esse encontro, porque é nele que resgatamos aquilo que somos – analisa Gutfreind, ao fazer referência à importância das relações construídas na infância.
O tema também levou o escritor a comentar um caso envolvendo o uso de inteligência artificial para lidar com uma desilusão amorosa. A experiência acabou inspirando um poema e reforçando uma reflexão sobre os limites das ferramentas digitais diante de sentimentos e vivências essencialmente humanas.
Segundo Celso, a própria IA reconhece que pode oferecer informações, sugestões e até interpretações úteis, mas não substituir a experiência vivida nem a troca proporcionada por outra pessoa.
A partir desse episódio, o psicanalista reforça uma ideia que atravessou toda a entrevista: a de que certas experiências humanas não podem ser terceirizadas. A construção da identidade, dos afetos e da relação com o mundo continua passando pelo encontro com o outro.



