Minha avó veio ao mundo numa comunidade indígena, no interior gaúcho. Nasceram duas meninas, gêmeas. Uma delas, minha avó, foi levada de lá ainda pequena e criada numa família branca. Só veio a conhecer a irmã, idêntica a ela, quando os caminhos se cruzaram, já adultas.
Essa história, que só soube há alguns anos, me ajudou a entender um pouco do estranhamento que me atravessa. Herdei os traços de um povo que desconheço. É isso que chamam de apagamento.
Quando Jeândro Garcia, produtor cultural e tradicionalista apaixonado pela história do nosso Estado, convidou o Dmitri Rodrigues para dirigir e a mim para roteirizar um espetáculo para a geração da Chama Crioula em Rio Pardo, que ocorre nesta sexta-feira (14), eu não imaginava que essa experiência me permitiria recuperar, em parte, a sensação de pertencimento.
A proposta era contemplar os grupos que formaram a cidade: indígenas, os Dragões do Rio Pardo, os luso-açorianos, a população escravizada, os militares imperiais e farroupilhas, tendo as mulheres como guias da narrativa. E assim fizemos.
Rio Pardo é a minha terra. É também a terra de Ana Aurora do Amaral Lisboa, personagem histórica, descendente dos farroupilhas, que guiará o espetáculo. Professora, fundou junto das irmãs uma escola que, curiosamente, foi onde aprendi a ler e escrever. Ao lado dela, na encenação, estará Antônio Ribeiro, um homem negro que foi corneteiro de Bento Gonçalves.
É através do olhar deles e de personagens por vezes esquecidos que apresentaremos a história de Rio Pardo.
*Leticia, a autora deste texto, é repórter de GZH e também atua como diretora, escritora, dramaturga e atriz.
Cinco atos

Passamos por cinco atos. No primeiro, a partir de uma coreografia criada pela riopardense Priscila Paim, mostramos os povos originários e sua relação com a natureza, antes da chegada de espanhóis e portugueses. Estou nesta cena, ao lado de duas atrizes de ascendência indígena. Ocupar aquele lugar é, de certa forma, um modo simbólico de resgatarmos esse vínculo perdido.
Mergulhamos na história do próprio Antônio Ribeiro e de outros escravizados, como a tia Inácia. Mostramos uma Rio Pardo dividida em meio à Revolução Farroupilha, até chegarmos à batalha do Barro Vermelho. Esse combate, um dos mais importantes do período, no qual os farroupilhas venceram as tropas imperiais, será encenado com uma coreografia potente, criada pelo Fabrício Guerreiro.
No sábado (15), ainda mostraremos, em um novo espetáculo, em frente à Igreja Matriz, que o maestro Joaquim José Mendanha, preso durante a batalha do Barro Vermelho, compôs a melodia que viria a se tornar o Hino Rio-Grandense. Uma das tantas histórias de Rio Pardo.
No palco, esses diferentes caminhos se encontram. Talvez seja esse o sentido mais bonito da Chama: um sentimento que atravessa gerações e nasce da memória de todos aqueles que ajudaram a formar a nossa terra. Para mim, talvez seja um meio de resgatar e reescrever, entre tantas histórias, um pedaço da minha que um dia foi apagada.
Programação
Sexta-feira, 14
A partir das 18h15min, no Sindicato Rural de Rio Pardo, com entrada franca
- Desfile de apresentação das Regiões Tradicionalistas e solenidade de abertura
- Espetáculo artístico Rio Pardo: Portugueses, Negros, Indígenas, Imperiais e Farrapos e a geração da Chama Crioula
- Apresentação da música tema do evento “Rio Pardo acende a Chama”, com Nilton Ferreira
Sábado, 15
A partir das 8h30min, na Igreja Matriz
- Solenidade de abertura
- Espetáculo artístico Sons da Revolução: Do Campo de Batalha ao Hino Riograndense
- Distribuição da Chama Crioula
- Desfile das delegações pelas ruas de Rio Pardo


