
Uma das atividades mais ricas e recompensadoras na vida de um jornalista é a entrevista. E o mais bonito nessa interação não é necessariamente perguntar — embora fazer o questionamento certo, na hora exata, seja uma das habilidades mais invejáveis na profissão.
Ouvir é tão importante quanto falar, e eu tenho aprendido cada vez mais sobre isso, desde a estreia do Paralelas, meu programa no YouTube de GZH, que chegou, na última semana, à 45ª entrevista publicada.
Na selva digital em que nos metemos, escutar virou coisa rara. Todos queremos opinar, e sobre tudo: da separação do casal famoso às escaramuças no Estreito de Ormuz, da escalação da Seleção Brasileira ao tarifaço de Trump. Queremos ter voz e protagonismo. O problema é que a conversa virou gritaria e ninguém mais se entende.
Nunca foi tão importante parar e escutar. Jornalismo é isso também.
Falo das entrevistas longas que procuram extrair o máximo da vida de alguém, com uma biografia interessante — alguém que faz a diferença na sua "aldeia", que deixa uma marca positiva no mundo, que tem uma história inspiradora para contar.
Desde outubro de 2025, gravo semanalmente conversas de 40 a 50 minutos em vídeo com pessoas assim, de todas as áreas, ideologias, gêneros, idades, etnias e trajetórias.
Nunca, em 25 anos de carreira, ouvi tanto e com tanto gosto. É um exercício semanal de desprendimento.
Explico: jornalistas em geral gostam dos holofotes, mas, em entrevistas desse tipo, convém não interferir em excesso nem aparecer mais do que o(a) entrevistado(a). Também é uma arte saber identificar quando fazer as perguntas mais delicadas sem quebrar a fluidez da conversa e mais: fazer silêncio (pausas) no momento certo para deixar que a pessoa do outro lado diga o que ainda não foi dito. O silêncio provoca isso.
Estou aprendendo e me emocionando com quem aceita participar e se abrir. Os momentos mais especiais têm sido aqueles em que o(a) interlocutor(a) se emociona.
Foi o que aconteceu, por exemplo, quando as gurias do Gaúcha Atualidade (Andressa Xavier, Giane Guerra e Rosane de Oliveira) falaram da admiração que sentem uma pela outra e da vez em que a eterna Miss Brasil Deise Nunes lembrou da conquista do título nacional (inédito para uma mulher negra em um país ainda, infelizmente, racista).
Isso se repetiu quando meu colega Marco Matos, ao falar de sua orientação sexual, disse que sexualidade não define caráter e quando o ator Marcos Breda lembrou da forte ligação com os filhos após quase morrer em acidente de moto.
Foi também o que ocorreu na hora em que a chef Roberta Sudbrack falou de sua luta pelas famílias produtoras de queijo e salame artesanal nos confins desse país tão rico e tão desigual.
Nessas horas, eu penso: que privilégio é ser jornalista, poder ouvir tudo isso e dar visibilidade a tantas histórias superlativas. Nunca fui tão feliz na profissão que escolhi. E nunca foi tão bom simplesmente deixar o papo fluir e, de verdade, escutar quem está ao meu lado.
***
Se você ainda não conhece o Paralelas, acesse o programa de forma gratuita no YouTube de GZH ou no Spotify e assista aos episódios na hora em que quiser, quantas vezes desejar.
O mais recente bate-papo foi com o empresário gaúcho Dado Bier. Novas entrevistas vão ao ar toda sexta-feira, no início da tarde.
Se preferir ler apenas um resumo dos bate-papos, basta clicar aqui. Siga, curta e acompanhe. É para você que eu e minha equipe trabalhamos.



