O neurologista gaúcho Pedro Schestatsky, autor dos livros Medicina do Amanhã e Cérebros Quebrados, afirmou em entrevista ao programa Paralelas que o intestino é o órgão mais importante do corpo humano.
Contrariando a visão tradicional, que costuma colocar o cérebro e o coração no topo dessa lista, ele defende que é o intestino quem “dá as cartas” para o funcionamento dos demais órgãos.
– No passado, ele era visto como um mero órgão excretor. Hoje, tivemos uma virada de chave. O intestino é o nosso jardim interno. É ele que produz neurotransmissores, que nos desinflama, que faz com que a gente absorva melhor vitaminas e sais minerais e menos glicose – explica.
Segundo Schestatsky, muitas das doenças que hoje afetam o cérebro estão associadas a processos inflamatórios que ocorrem em diferentes partes do organismo.
— Das 55 mil doenças descritas no planeta, 90% são inflamatórias. A própria Sociedade Britânica de Psiquiatria já admitiu que a depressão é uma doença inflamatória — afirma.
O neurologista também destaca outros dois fatores que, na sua avaliação, contribuem para o aumento dos transtornos mentais: o excesso de açúcar e a baixa diversidade da microbiota intestinal.
O intestino é o nosso jardim interno. É ele que produz neurotransmissores e que nos desinflama
PEDRO SCHESTATSKY
Neurologista
Para o médico, uma alimentação pouco variada empobrece esse ecossistema e pode afetar diretamente a saúde cerebral.
Na avaliação de Schestatsky, existe uma conexão íntima entre intestino e cérebro, capaz de influenciar funções como humor, memória e cognição.
– Outro ponto é que o açúcar faz com que os neurônios fiquem com uma espécie de papel filme entre eles, o que impede a comunicação. Isso, dependendo da genética da pessoa, pode levar a um quadro de depressão ou demência. – completa.
Transplante de fezes
Durante a entrevista, Pedro Schestatsky também relembrou uma experiência que ganhou repercussão nacional em 2018. Na época, ele foi a primeira pessoa a receber um transplante de microbiota fecal na América Latina.
– O procedimento basicamente consiste em você tirar o seu cocô e colocar o de outra pessoa no lugar. Foi feito através de colonoscopia e resetou o meu intestino. Eu melhorei em vários parâmetros metabólicos. Eu tinha insônia, TDAH, e isso tudo se arrefeceu. Porém, durou três semanas – comenta.
Na época, o transplante rendeu muitas críticas e sérios questionamentos ao neurologista. Anos depois, porém, a discussão ganhou novo fôlego.
Em 2022, pesquisadores da Universidade de Harvard propuseram a criação de bancos de fezes humanas para ampliar os estudos sobre transplantes de microbiota fecal. A iniciativa partiu da hipótese de que o procedimento pode ajudar no tratamento de diferentes doenças e até contribuir para retardar processos associados ao envelhecimento.
Hoje, Schestatsky vê a experiência como uma demonstração da importância de cuidar do intestino, mas ressalta que hábitos como alimentação adequada, atividade física, sono e diversidade alimentar continuam sendo os principais caminhos para manter a saúde intestinal e cerebral.





