A jornalista Camila Bengo colabora com a colunista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

Há uma escola em Porto Alegre onde o cavaquinho é o objeto de estudo principal. Com o pequeno violão de quatro cordas empunhado junto ao peito, a cada encontro, os alunos tocam sambas de amor e malandragem que vão de Jovelina Pérola Negra a Bezerra da Silva. Aplicados no objetivo de se aperfeiçoarem no instrumento, prestam atenção em cada lição passada pelo professor.
Cassiano Américo, 36 anos, orienta acordes, corrige movimentos e chama a atenção para o que pode melhorar. Em alguns momentos, recorre ao quadro branco para explicar as artimanhas do cavaco — que apesar de diminuto, não é fácil de tocar.
É ele o criador da Cavaquineos, uma escola de música que nasceu diferente das tradicionais. Em vez de oferecer aulas de diversos instrumentos, especializou-se em um: o cavaquinho.
Hoje, a escola acolhe nas aulas de cavaco também tocadores de banjo (que possui afinação e acordes iguais, mas estrutura distinta). Ainda há turmas pontuais de percussão, canto e violão. Contudo, o protagonista permanece sendo o cavaquinho.
Coletividade como método
Fundada oficialmente há cerca de três anos, a escola fica no número 1.273 da Rua General Caldwell, no bairro Azenha, na Capital. As aulas ocorrem em grupo, em turmas divididas de acordo com o nível de habilidade do aluno com o instrumento.
A mensalidade padrão, com uma aula coletiva por semana, é de R$ 200 — mas é possível contratar planos personalizados com mais encontros semanais e, ainda, aulas individuais. Entretanto, a escola incentiva que os alunos participem das classes em grupo.
— Assim, o aluno aprende a tocar o seu instrumento e a ouvir os demais, buscando um resultado sonoro harmonioso. O grupo serve como parâmetro, e eles trocam experiências, compartilham dicas e até testam os instrumentos uns dos outros — diz Cassiano.
Além disso, a coletividade é uma característica intrínseca ao samba, que é o foco principal da Cavaquineos. Embora o instrumento possa abraçar diferentes estilos, a escola ensina os alunos a tocarem a partir de repertórios do gênero — não à toa, estampados nas paredes da sala de aula, os rostos de alguns dos maiores bambas da cultura popular observam e abençoam a evolução dos cavaquinistas estudantes.
— Faço questão de manter essa identidade bem definida para preservar a raiz cultural e atuar, também, como um espaço de resistência e preservação do samba em Porto Alegre — justifica o fundador da Cavaquineos.
Largou tudo pra viver do cavaquinho
Cassiano aprendeu a tocar cavaquinho aos 13 anos, com um professor particular. Foi incentivado pelo pai, que, apesar de nunca ter tocado nada, possuía uma grande coleção de instrumentos musicais em casa. Era também uma forma de fazer com que o filho superasse a timidez extrema que o atravessava durante a adolescência.
— O cavaquinho era o meu escudo. Hoje, eu brinco que ele é a minha espada — comenta Cassiano.
Anos mais tarde, quando entrou na UFRGS para cursar Engenharia Mecânica (que depois acabou trocando pela Engenharia Civil), ele enxergou no instrumento também uma possibilidade de renda.
Começou a dar aulas em diretórios acadêmicos da universidade e, diante da grande procura pelo instrumento, expandiu para espaços culturais como a Casa de Cultura Mario Quintana e a Casa de Cultura Plauto Cruz.

A empreitada deu tão certo que Cassiano decidiu apostar todas as suas fichas no cavaquinho: largou a faculdade e investiu na abertura da Cavaquineos. Ele não se arrepende da escolha e estima que, desde as primeiras aulas na UFRGS até o momento atual, quase mil alunos já tenham dedilhado o cavaco sob sua orientação.
— A minha história é a de um estudante frustrado que precisava de dinheiro e acabou se tornando professor de música — resume.
— Acho que a experiência na área de exatas acabou me ajudando a construir uma didática própria para ensinar o instrumento. Os alunos comentam que uso muito o quadro, e isso vem da Engenharia — diz.
Estágio na roda de samba
O curso é dividido em quatro módulos. O primeiro recebe os alunos mais iniciantes e ensina preceitos básicos, como a afinação, as partes do instrumento e a base das notas musicais. Depois, vem o módulo dedicado às transições de acordes e à aplicação prática em músicas.
A terceira etapa desenvolve repertório e sequências harmônicas. Já o quarto módulo, que inclui os alunos mais avançados, promove o aprimoramento das habilidades e o contato com o público.
— O estágio obrigatório é na roda de samba. Pelo menos uma vez por mês fazemos um evento em que os alunos tocam. É sempre um momento legal, para o qual eles se preparam. O público às vezes não espera muito, mas acaba se surpreendendo — conta Cassiano.
Alunos aprovam metodologia
A metodologia do professor é elogiada pelos estudantes. O empresário Christian Chu, 39 anos, é aluno de Cassiano desde a UFRGS. Começou a aprender o instrumento do zero e, hoje, já atua como cavaquinista em diversas rodas de samba da cidade.
São quase 10 anos tocando cavaquinho, mas ele nunca deixou de frequentar as aulas:
— Até dá para treinar individualmente, mas há coisas que você só melhora com o apoio do coletivo. E a aula, para mim, funciona também como uma terapia. Não abro mão de estar aqui e interagir com o grupo.
A aposentada Magda Krabbe, 65 anos, também tem nas aulas de cavaquinho um momento para desopilar. Ela elogia a forma como o curso está estruturado:
— As aulas são bem cheias, mas, mesmo quando estamos no início do aprendizado, não sentimos tanta dificuldade devido à didática e à maneira como o Cassiano nos envolve. Também é bacana porque tem muitas mulheres na turma.

A presença feminina é um movimento que ganhou força na escola. Segundo Cassiano, as mulheres já representam cerca de 20% do total de alunos, o que levou à formação do grupo Cavaquineas — uma reunião das alunas já mais avançadas, que comandam juntas a própria roda de samba.
Para a gerente financeira Isiane Canabarro, 50 anos, aluna da escola que faz parte das Cavaquineas, o instrumento tem sido uma maneira de ocupar espaços historicamente reservados aos homens:
— Quando nos enxergamos e vemos outras mulheres participando, isso nos mostra que também podemos estar ali. Muitas já buscaram a escola depois de ver a nossa roda de samba.
Como começar a estudar
A Cavaquineos conta, hoje, com 16 turmas de cavaquinho — a maioria delas à noite. Conforme Cassiano, há vagas abertas nos grupos existentes e também para novas turmas. Interessados podem contatar a escola pelas redes sociais, no @cavaquineos.




